Rio de Janeiro, 16 de Agosto de 2022

Liberdade feminina

Para a diretora do RECIVIL e INDIC, a mulher da atualidade ainda reproduz comportamentos e papéis de desvalorização e subordinação ao assumir sobrenome do marido

O número de mulheres que adotam o sobrenome do marido caiu 24% em 20 anos, segundo dados da Associação Nacional dos Registros de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil).

Outro levantamento feito pelo Colégio Notarial do Brasil – CNB foram registrados 80.573 mil divórcios consensuais no ano de 2021, um recorde desde 2007.

O aumento do número de divórcios e a não adesão do sobrenome da família do marido coloca em pauta outra questão: a retomada da identidade da mulher ao ter - ou manter - seu nome de solteira, isso quando a mulher opta por assumir o sobrenome da família do marido.

 “A mulher assumir o sobrenome da família do marido é algo enraizado em nossa sociedade e tem origem em uma história patriarcal: para uns trata-se apenas de uma tradição inofensiva, para outros, resultado do machismo.”, menciona a psicanalista e CEO do Ipefem, Ana Tomazelli.  

"Quando me casei, em 2014, decidi acrescentar o sobrenome do meu ex-marido, mesmo sendo uma mulher com visão mais progressista e afastada do que é convencionado pela sociedade patriarcal. Ou seja, é tão enraizado que a gente às vezes nem percebe. Tive um trabalho imenso quando me separei, não faria isso novamente", relata a relações públicas Daniella Pimenta.

Já Elisa, que discute o assunto dentro do mercado imobiliário e em seus canais sociais, também se identifica com a questão.  Divorciada desde 2021, a empresária entende a importância que o resgate do nome de nascimento traz para as mulheres. “Quando a gente casa não pensa em se divorciar, mas quando isso acontece e a mulher volta a assumir o nome de solteira, é uma sensação de liberdade imensa porque a mulher recupera sua identidade pessoal”, destaca.

Independentemente do contexto em que esse ato está inserido, é fato que, ao se divorciar, a mulher que assumiu o nome do marido voltará a ter o nome de solteira e para muitas isso é um resgate da sua identidade. 

“Por muitos anos ficou fixado em nossa sociedade que a mulher, ao casar, deveria assumir o sobrenome da família do marido e assim assumir a responsabilidade de ‘honrar’ esse sobrenome. Isso faz com que ela deixe de lado sua própria identidade e passe a assumir o peso do sobrenome da família. Então quando a mulher se divorcia ela resgata sua própria identidade e isso é transformador”, declara Elisa Rosenthal, idealizadora do Instituto Mulheres do Imobiliário e autora do livro Proprietárias.

Se durante muito tempo as mulheres seguiram a tradição de assumir o nome da família do marido, nos últimos anos esse movimento decaiu. Segundo dados levantados pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo (Arpen-SP) tem acontecido uma tendência de as mulheres rejeitarem o nome da família do parceiro. No último ano o número de mulheres que optaram por não alterar seu nome atingiu o ápice, 18 mil mulheres mantiveram o nome não assumindo o sobrenome da família do marido.

“Isso é algo muito significativo, não apenas porque ela não precisará se preocupar em trocar todos os documentos novamente ao se divorciar, mas principalmente porque, ao que tudo indica, a mulher está mais consciente da preservação da sua identidade, pois o nome de nascimento carrega toda a sua história”, ressalta Elisa.

Se olharmos para nosso passado iremos constatar que a mulher, por longos anos, foi considerada como propriedade do homem, primeiro do pai, depois do marido. O pai era responsável por “arranjar” um casamento para a filha, como se fosse uma transação comercial. Quando a mulher casava o marido e a família exigiam que ela fosse uma excelente dona de casa, boa “parideira” e mãe, sendo-lhe negado conhecimento, educação, trabalho fora de casa e cultura, uma forma da mulher não contestar a condição de submissão exigida pelo marido. 

Se por um lado as mulheres estão rejeitando o sobrenome da família do marido, a quantidade de homens que têm aderido ao sobrenome da esposa aumentou. Passada uma década da mudança no Código Civil Brasileiro, que permitiu ao homem adotar o sobrenome da mulher, em 2002, a prática vem se tornando comum. No Estado de São Paulo, em média, 34% dos casamentos são celebrados no civil com o noivo ganhando um sobrenome a mais.

Uma coisa é certa: cada vez mais as mulheres têm se unido em uma só voz em busca da igualdade de gênero, independência e liberdade, em todo o mundo. No Japão, por exemplo, as mulheres passaram a questionar as disparidades do mercado de trabalho onde homens ocupam mais cargos de liderança, travando uma luta com mais intensidade nos últimos tempos, marcados pelas primaveras feministas.

Aliás, o Japão tem sido um dos países em que as mulheres têm lutado muito nos últimos anos, por novos padrões de vida e de comportamento que sejam menos opressores para as mulheres como, por exemplo, no documentário Jiro Dreams of Sushi, disponível na Netflix, em que levanta a discussão de que as mulheres não podem fazer sushi porque menstruam. A fala do herdeiro do restaurante Jiro Ono, Yoshikazu Ono, reflete a cultura machista do país. “Mulheres menstruam. Ser profissional significa oferecer um sabor estável no alimento servido. Mas, devido ao ciclo menstrual, mulheres têm um desequilíbrio no gosto e é por isso que mulheres não podem ser chefs de sushi”, declarou em entrevista ao jornal norte-americano The Wall Street Journal, mesmo não tendo nenhuma base científica para esse argumento.

Contudo, as mulheres japonesas seguem dando exemplo de luta por igualdade, independência e liberdade. Em 2010 foi inaugurado o primeiro restaurante liderado por mulheres, o Nadeshico Sushi, da sushiwoman Yuki Chidui, na cidade de Tóquio. E compartilhando dessa conquista, em 2019, momento antes da pandemia, a empresária abriu a Nadeshico Sushi School para ensinar a outras mulheres não só a arte do sushi, mas também a lidar com questões de gênero no trabalho. 

Além disso, de acordo com a ONG Single Mother Fórum, de Tóquio, as mulheres mudaram muito, desde as décadas de 1980 e 1990, muitas passaram a estudar e se profissionalizar, também divorciaram-se ou preferiram não casar e nem ter filhos, às vezes escolheram sair do país. Em outras palavras, procuraram sair pela tangente. 

 

Elisa Tawil é a idealizadora, co-fundadora e líder do Instituto Mulheres do Imobiliário. Mentora e consultora estratégica de negócios, foi a primeira certificada Shakti Leader em São Paulo. Também é membro da Tiara Resource Circle, conselheira da ONG Gaia + e voluntária pela FIESP e Na’amat Pioneiras SP. Em 2019, foi eleita LinkedIn Top Voices. Atualmente, é executiva na eXp Brasil. Além disso, é colunista da Revista HSM Management, do Imobi Report e Exame Invest e produz e apresenta o podcast Vieses Femininos. 

Ana Tomazelli, psicanalista e idealizadora do IPEFEM (Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino e das Existências Múltiplas). Fundado em 2019, o Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino e das Existências Múltiplas - Ipefem atua em três pilares, que podem acontecer coordenadamente ou individualmente: pesquisa, educação e terapia. Em Pesquisas, considera-se todas as modalidades técnicas de pesquisa que considerem recortes por gênero, orientação sexual e saúde mental. Em Educação, o instituto tem a Comunidade Ipê, uma plataforma de educação à distância, baseada em Lifelong Learning, dedicada a aulas expositivas e micro conteúdos de impacto. Em Terapia, o instituto já atendeu milhares de pessoas, oferecendo apoio terapêutico individual ou em grupo, podendo ser atendimentos gratuitos ou com valores simbólicos acessíveis. Saiba mais: https://ipefem.org.br/
 

Crédito:Luiz Affonso

Autor:Stefani Pereira

Fonte:Temma Agência