Rio de Janeiro, 22 de Outubro de 2018

Por que estou solteira?

Por que estou solteira?

Três mulheres que querem se casar contam por que ainda estão solteiras. Elas comentam suas expectativas amorosas e as dificuldades de solidificar relações. As entrevistadas apreciam a autonomia feminina, mas acham que ela pode assustar pretendentes. A reportagem ouviu ainda a opinião de três pessoas-chave: a mãe, a melhor amiga e o ex-namorado. Por Simone Dias. Foto: Fernando Costa

 
 

A sonhadora

Arquivo pessoal
Karla Cristina Andrade, 30 anos, fisioterapeuta

“Sempre fui muito romântica, idealizava tanto os homens que dificultei minhas relações. Acreditava em príncipes, queria alguém que me protegesse. Nos pequenos conflitos, meu castelo de areia caía. Depois da separação eu descobria que a gente nem era tão infeliz assim...

Meu pai e meu irmão são referências muito fortes na minha vida, e sempre foram maravilhosos comigo. Acho que eu buscava alguém como eles. Tive namoros longos, de até quatro anos, mas, se o parceiro não era o que eu idealizava, terminava tudo. Mudei porque vi que não existem homens perfeitos, mas sei que existem homens sensíveis. Quero alguém que tenha respeito, cumplicidade, seja companheiro e tenha uma afinidade de pele comigo.

As pessoas me cobram por eu estar sozinha, mais do que eu mesma. Todos querem saber da minha vida sentimental. Eu não ligo e até me justifico, mesmo considerando uma coisa besta. As pessoas também invejam a liberdade. Eu não vejo nenhum problema em estar só. A vida não é apenas o lado amoroso.

Nos últimos dois anos amadureci bastante, por causa do trabalho e pelas experiências que tive, inclusive os namoros que não deram certo. Estou mais independente e mais aberta para experimentar coisas novas.

Mas, das relações que eu vejo, poucas me despertam admiração. Acho que existe muita agressividade entre os casais e falta compromisso. Às vezes até me sinto privilegiada por estar sozinha. Não quero apenas o título de casada. Quero ter um companheiro, mas não sob qualquer condição. Me sinto cada vez mais segura e independente. Talvez esse lado até assuste um pouco, mas sei que muitos homens podem me admirar exatamente por isso.”

O ex-namorado

Arquivo pessoal
Roberto Moraes, 42 anos, músico

Eu e a Karla tivemos um relacionamento rápido há quatro anos, e depois perdemos o contato. Ela já era uma mulher forte, sabia o que queria profissionalmente e buscava um parceiro maduro. Estava preparada para viver sozinha ou ao lado de um companheiro. Era um pouco sonhadora, mas, como eu também sou, sempre achei que éramos parecidos nesse aspecto.

Não vejo nada demais na Karla estar solteira aos 30 anos. Eu admiro as mulheres de 30! Mas, como elas costumam ser auto-suficientes e experientes, também ficam mais exigentes, por isso, talvez, leve mais tempo para encontrar um parceiro.

Eu considero a Karla uma mulher maravilhosa, completa, que tem tudo para construir uma relação de verdade. Ela sabe se entregar e, se nosso relacionamento não deu certo, talvez seja porque naquela época eu não estava preparado para uma relação mais consistente.”

A melhor amiga

Arquivo pessoal
Edna Perotti, 31 anos, psicóloga

Somos amigas há 25 anos, crescemos juntas. Acho que a Karla sempre colocou o casamento em primeiro lugar, mas buscava a figura do pai e do irmão nos namorados. Queria a proteção, o companheirismo e o amor que eles sempre dispensaram a ela. Mas isso é impossível, eles são únicos!

Hoje ela não pensa mais como adolescente. É uma mulher que deseja o espaço dela, quer se profissionalizar, busca autonomia. Não quer dependência do pai, do irmão, nem de um marido.

Ela amadureceu nos últimos anos, depois que entrou no mercado de trabalho. Sempre foi muito protegida pela família, mas agora quebrou a redoma de vidro, está mais realista, em busca de um homem para amar e construir uma relação legal.”

A mãe

Arquivo pessoal
Fafá Guimarães Andrade, 56 anos, dona de casa

Eu não acho que o lado sonhador da Karla atrapalhe. Penso que ainda não apareceu a pessoa certa. Para ela, tudo tem de ser muito autêntico, forte. Ela procura cumplicidade. Nunca teve dificuldades para se relacionar, sempre foi feliz. O problema maior de ela estar sozinha é a satisfação que tem de dar para as outras pessoas.

A Karla é superamorosa, se dedica ao relacionamento, mas é muito exigente. Eu acho que as pessoas nunca têm todas as qualidades que a gente deseja, mas, com o passar do tempo e a convivência, tudo pode melhorar. Acredito que as mulheres podem modificar muita coisa nos relacionamentos. Ninguém encontra uma relação pronta. Karla sempre buscou a perfeição e isso não existe. Acho que ela tem ainda um lado inocente, infantil. Mas, quando você opta por ter alguém, precisa se adequar a essa situação.

Nos últimos dois anos ela mudou bastante. Os namoros, a experiência profissional e o desenvolvimento do seu lado espiritual foram importantes para o seu crescimento. Portanto, se aparecer alguém legal, acho que vai ser para valer, porque ela agora está madura para isso.”

A workaholic

Arquivo pessoal
Leonete Regina Accetto, 41 anos, bacharel em filosofia

“Tenho o vício do trabalho. Atuo na área de lazer e cultura e, se for preciso, trabalho até aos domingos [ela é gerente de difusão de lazer e recreação do Departamento de Lazer da Prefeitura de Santo André]. Não é por ambição, tenho prazer.

Eu me apaixonei três vezes na vida, namorei com dois deles, mas foram histórias que não deram certo. Eu tenho medo de me arriscar, de quebrar a cara e me machucar. O relacionamento mais longo que tive durou sete meses.

Existem pessoas que reduzem a felicidade ao encontro do grande amor. Eu priorizei a carreira e talvez seja por isso que ainda esteja solteira. Para mim, o lado intelectual e cultural é tão importante quanto o afetivo. Além disso sou tímida, introspectiva, uma mulher que namora pouco. No trabalho, não me abro para envolvimentos pessoais. Também tenho um código de ética, não me relaciono com pessoas casadas. Portanto, fica mais difícil encontrar um parceiro. Imagino que eu pareça estar muito na minha, o que dificulta aproximações. Ninguém passa no sinal vermelho. Você tem de sinalizar, pelo menos, que está no amarelo, criar uma abertura para o outro.

Moro com a minha família. É cômodo, tenho uma mama que faz tudo para mim. Não me sinto pressionada a casar. Ao contrário, para a minha mãe os filhos são maravilhosos e nunca ninguém está a nossa altura. Mas, para encontrar um companheiro, estou decidida a olhar as pessoas com outros olhos. Quero buscar mais prazer para a minha vida. Saio, tenho amigos, mas quero uma relação. Espero encontrar um homem que também goste de trabalhar, seja inteligente e que tenha um lado feminino aguçado. Exijo muito de mim e do outro. Estou tentando mudar e não perder oportunidades.”

O ex-namorado

Arquivo pessoal
Dani Alves, 42 anos videomaker

Leonete é uma mulher interessante, inteligente, que investiga a arte e a cultura e que também consegue transitar pelo mundo dos negócios com muita desenvoltura. No primeiro momento isso é um atrativo, mas depois esse lado workaholic dela interfere demais.

Nós estávamos nos conhecendo e ela não tinha tempo para mim. Lembro que por duas vezes a gente se falou durante o dia e combinamos que ela me ligaria à noite, para sair. Só que ela não me ligou. No dia seguinte pediu desculpas, dizendo que tinha ficado cansada e não tinha mais pique para sair. Ela era ocupada até no final de semana.

Ela é dependente do trabalho, joga toda a energia ali. Acho que tem medo de arriscar, de deixar um pouco a vida dela e partilhar a rotina com alguém. Morar com os pais faz com que ela tenha uma vida pessoal protegida. Do ponto de vista afetivo, acho que eu tinha mais experiência e mais coisas para ensinar do que para aprender com ela.

Eu me envolvo facilmente, ela leva tempo para se entregar. A gente tinha muita afinidade, mas naquele momento eu precisava de alguém mais disponível. O relacionamento terminou por falta de tempo e de contato.”

A mãe

Arquivo pessoal
Emília Gibba Accetto, 66 anos, dona de casa

Minha filha está solteira porque ainda não encontrou um companheiro ideal e também pelo seu envolvimento com o trabalho. Ela se dedica muito e não tem tempo para mais nada. Também tem medo de se arriscar no relacionamento e se desiludir.

A Leonete é muito autocrítica, até na hora de comprar roupas. Na hora ela gosta, depois começa a dizer que não ficou bem aqui, não ficou bem ali. Se eu elogio, ela fala que eu sou mãe, por isso acho tudo perfeito! Esse temperamento atrapalha na hora de encontrar um companheiro. Ela se entusiasma no começo e depois começa a colocar defeito, mas eu também ajudo a colocar um pouquinho! Não quero meus filhos para sempre comigo, mas não acho que precisa casar para ser feliz.”

A melhor amiga

Arquivo pessoal
Marta Raglione, 36 anos, produtora cultural

A Leonete é independente, não precisa de homem para sobreviver e não se deixa subjugar. O trabalho é o suporte da sua vida. Como ela se cobra muito, cobra do outro também. Mas ela tem um lado frágil e carente, que só as amigas conhecem. Uma faceta que já a fez chorar por relacionamentos que não deram certo, por exemplo.

Ela quer um homem completo: que seja batalhador, que tenha vontade de crescer profissional, espiritual e materialmente, e que também tenha sensibilidade e conheça as vontades dela. Não existe esse homem perfeito! Ela precisa ser mais tolerante. Eu acho que o defeito em um homem é construtivo. E não existem homens tão fortes quanto ela! Eu a vejo como as grandes heroínas.

Nos últimos tempos, ela está menos exigente. Descobriu que é preciso dar uma segunda chance e parece mais disposta a conhecer pessoas novas e criar oportunidades de aproximação.”

A individualista

Arquivo pessoal
Beatriz Taubert, 35 anos, publicitária

“Sou uma mulher muito exigente, comigo e com os outros. Um companheiro tem de ser do meu jeito: bom caráter, bem relacionado, sincero, sensível, tudo o que eu sou. Se não for, eu não insisto, parto para uma nova história.

A minha cabeça jovial atrai homens mais novos. Mas me interessei por dois homens mais velhos recentemente e não tive chance. Eu telefonei, mas eles não retornaram. Achei que não estavam interessados e não procurei mais. Sou individualista, os homens têm medo desse tipo de mulher. Eu me considero muito sociável, mas tenho muitas atividades que gosto de fazer sem companhia. Tenho prazer em viajar sozinha e sempre fiz teatro, ioga, ginástica. Vivo ocupada com as minhas coisas e a minha profissão.

Talvez eu tenha que compartilhar mais. Eu falo muito, ouço menos. É recorrente os meus parceiros reclamarem disso. Já terminei relacionamentos preco-cemente. Tenho dificuldade de colocar para fora o que me incomoda, mesmo em situações simples. Se ele diz que vai ligar e não liga, não consigo dizer que fiquei esperando e me chateei.

Eu me considero uma mulher interessante, mas acho que nos últimos tempos vivo uma solteirice ressentida, pois gostaria de estar acompanhada. Mas não me imagino morando de cara com alguém. Antes, pretendo sair da casa dos meus pais e morar sozinha.

Dois anos foi o máximo de tempo que já fiquei com alguém. Foi quando namorei com o Carlos Alberto. Concordo quando ele diz que somos parecidos. Mas achei que fui traída e eu não tolero traição. Se hoje nós estivéssemos juntos, talvez eu tivesse trabalhado melhor isso e até superado, mas na época não deu.”

O ex-namorado

Arquivo pessoal
Carlos Alberto Buzzi, 46 anos, comerciante

A Bia não está casada porque tem outros objetivos, está voltada para outras áreas da vida, como a profissional, por exemplo. Ela tem personalidade forte. Somos parecidos no aspecto da independência, de olhar primeiro para si. Acho que essa é uma característica de solteiros em geral. Eu mesmo sou assim: egoísta, individualista, ocupado em batalhar para conquistar minhas coisas.

Mulheres como a Bia podem até afastar alguns homens, mas isso depende do grau de envolvimento. Ela é uma mulher de caráter, culta, profissional. Gosto muito dela, somos amigos até hoje.

Ficamos dois anos juntos, até que um dia ela desconfiou que eu a traía e terminou tudo. Não tinha nada a ver. Eu não estava com outra pessoa. Ela agiu equivocadamente, faltou habilidade. Foi um engano, mas acho também que nós não ficamos juntos porque eu estava muito envolvido com meus negócios.

Hoje a situação poderia ser diferente.”

A melhor amiga

Arquivo pessoal
Marcia de Abreu Ávila Dias, 35 anos, médica pediatra

Todo mundo gosta da Bia. Ela é expansiva, extrovertida, bonita, adora conversar. Sempre foi extremamente independente, muito determinada e isso causa insegurança nos homens. Ela tem um gênio forte, mas é emotiva e carinhosa não só com os namorados, mas com os amigos também. Quando está namorando, é dedicada. É uma pessoa fácil de dialogar. Acho que a sua maior dificuldade é encontrar um companheiro que aceite a sua independência, sua necessidade de liberdade. Mas homem atrás dela não falta, ela é bem namoradeira!

Para mim, ela não é individualista. Ela é muito romântica, sonha em ter uma família. Acho que ela precisa de um homem mais velho, sem machismo, com cabeça mais aberta, para poder compreendê-la. Uma de suas grandes queixas é que a maioria não tentou entendê-la, nem apoiá-la, a maioria tentou mudá-la.”

A mãe

Arquivo pessoal
Nadir Lacerda de Figueiredo Taubert, 68 anos, professora aposentada

A Beatriz é mais movida pela razão e tem um lado egoísta, como se pudesse se completar sozinha e não precisasse das outras pessoas. É muito independente, crítica, escolhe muito. Acaba achando mais os defeitos do que as qualidades das pessoas.

Eu acho que se o outro mostrar que tem companheirismo, idoneidade moral e força para o trabalho, vale a pena apostar. Tenho 42 anos de casada e lógico que já vivenciei altos e baixos na minha história.

Ela está aberta para encontrar um relacionamento, mas está à procura de alguém ideal. Eu digo que vai ficando cada vez mais difícil encontrar, porque com o passar dos anos a gente fica cada vez mais exigente...

Ela é muito impulsiva, mas muito meiga também. Eu a vejo carente de um colo, apesar de ela sempre se furtar disso, achando-se muito independente. Há anos ela diz que quer mudar e ter o canto dela, mas eu me pergunto se ela ainda não saiu da casa dos pais porque espera encontrar um carinho maior e, no fundo, precisa de aconchego.”

Crédito:Anna Beth

Autor:Redação

Fonte:Marie Claire