Rio de Janeiro, 15 de Novembro de 2019

Acima das diferenças

Acima das diferenças

 

 

 

Amor é assim mesmo: vence distâncias, une diferentes, quebra regras.

 
Paulo e Tainá, Vera e Danilo, Isabella e Luiz são casais com vida e histórias diferentes, mas um ponto em comum, ou melhor, dois: todos estão juntos há sete anos e são casais que "uniram" gerações através do matrimônio.

Tainá Guedes, 24 anos, é casada com um homem 18 anos mais velho, Paulo Barossi, de 42. Foi amor à segunda vista. "Ela era uma japonesinha muito metida", lembra Paulo. "Ele era um velho ridículo, com um cabelão espetado, bermuda xadrez, camisa de florzinha", rebate Tainá.

A história começou em uma festa, logo que Paulo voltou dos Estados Unidos - ele queria montar um clube de jazz, mas acabou dono do Nakombi, um dos restaurantes japoneses mais badalados de São Paulo, separou-se da mulher e teve de enfrentar a família da moça - que tinha 17 anos quando a paixão aconteceu.

 

 

AFINIDADE INEXPLICÁVEL -
 
 
 
"Não sei explicar o que nos uniu, mas houve um tempo em que a gente se via diariamente, indo para festas, curtindo, viajando, sem acontecer absolutamente nada. Começamos a ficar amigos demais, dormíamos juntos e eu comecei a desejá-la", lembra Paulo.

"O Paulo dizia que eu não sabia beijar. Me provocava tanto, que acabei lhe dando um beijo. Aí, no dia seguinte, ele abriu a porta do carro na frente da minha casa e disse: sobe no carro que eu preciso falar com você..."

O idílio do casal estava começando. Mas logo a mãe de Tainá ameaçou dar queixa na polícia contra Paulo. Não funcionou: a menina passou a fugir de casa para namorar.

A mãe radicalizou: mandou a garota primeiro para a casa da madrinha em São Paulo mesmo e, depois, para Itaparica, na Bahia. Aí, Tainá fugiu para sempre.

"Ele me falava que apesar de morar com a mulher, não tinha sexo com ela. Só que isso não era claro para os filhos dele, que me acusavam de ter desmanchado a família. Foi difícil acabar com o mal-entendido", lembra Tainá. Mas, digamos, o amor venceu!!!

Eles montaram uma casa e passaram a morar juntos seis meses depois. "O que me assustou é que todos que eu considerava modernos se mostraram extremamente caretas e reacionários", conta Paulo.

No começo, também, os dois trabalharam juntos. Tainá cuidava do marketing do restaurante. Não deu muito certo. Por isso, atualmente, ele cuida dos restaurantes, são dois. E ela, como amante das artes, faz calendários para ajudar organizações não-governamentais, desenha lingeries com frases de jovens poetas, cria eventos...

A diferença de idade às vezes pesa. Paulo acredita que não fosse seu perfil festeiro, já teria virado um velho. Ele acha sua jovem esposa preconceituosa e sem bom humor - ela não ri das suas piadas!

De seu lado, Tainá não vê tanta juventude em sua cara-metade. Ele quer que ela cresça a toque de caixa: "O Paulo cobra de mim uma maturidade que não tenho. Só que quero tempo para amadurecer, sem pressão ou pressa".

De qualquer forma, Paulo diz, e Tainá concorda: "A gente está crescendo junto e isso é muito bacana. O melhor de tudo é que, depois de sete anos, eu ainda o desejo demais."

 
VÍTIMA DO CUPIDO -
 
 
A professora Vera Botelho, 61 anos, encontrou seu colega, Danilo Donzelli, de 48, fora da sala de aula.

Eles foram vítimas da armação de um amigo comum, que marcou um cineminha inocente com os dois sem avisar a ninguém - depois de anos de campanha promocional para os dois.

Ela era separada, tinha quatro filhos e sua mãe acabara de morrer. Ele, solteiro, também estava de luto pelo único irmão e pela mãe. Os dois fizeram um acordo de juntar as solidões.

"A idéia era manter a vida independente. Mas a gente começou a sair cada vez mais e virou namoro mesmo", comenta Danilo. Vera relutava por conta da diferença de idade. Danilo também achava esquisito, principalmente por causa dos filhos.

Três anos depois, os dois foram morar juntos por força das circunstâncias, como conta Danilo: "A gente foi trabalhar junto e, como não dirijo, eu ia dormir na casa dela para facilitar". Além disso, na casa dele, só havia uma cama de solteiro, enquanto na dela "uma cama muito boa, gostosa e grande..."

"Eu acho que as pessoas não atinam que a nossa diferença de idade é tão grande porque a Vera parece muito jovem e a minha barba branca ajuda a me envelhecer", confessa Danilo. Os dois, ao contrário dos outros casais, não enfrentaram grandes resistências da família ou dos amigos. "Acho que a minha irmã não gosta muito", diz Vera. Mas os ganhos foram grandes: "Aprendi a não ser tão séria, a respirar - que era uma coisa que eu não fazia - a relaxar", conta a professora. Danilo voltou a viver: "Eu estava numa fase muito ruim e ela me abriu um monte de horizontes".

Mesmo assim, nem tudo são rosas no mundo do casal. Vera reclama do "anarquismo" do parceiro. Ele diz que ela só pensa no trabalho. Os dois riem, um do outro, e dão um abraço apertadinho.

 
PRIMEIRO DAMO -
 
 
 É assim que o publicitário Luiz Casali, 57 anos, se apresenta para os amigos. Tudo começou quando a jornalista Isabella Blanco, hoje com 39, entrou no seu escritório. Ele era o dono da Rádio América e ela, sua assessora de imprensa. "Na hora pensei: "Me gusto", brinca Luiz. Isabella tinha 26 anos, era casada. Luiz também.

"Foi uma admiração profissional mútua, pela forma como ele conduzia a sua empresa, com idéias modernas e tratamento diferenciado tanto para os funcionários como para os prestadores de serviço", confessa Isabella.

As lembranças enchem de lágrimas os olhos verdes da jornalista. Ela descasou em1995, eles começaram a namorar em1996. Em seguida, foi a vez dele se separar e os dois se unirem.

Mas não foi simples como parece. Luiz havia perdido um filho com 17 anos e confessa que, apesar do casamento falido, nunca imaginou se separar da primeira esposa: "Estava casado há 27 anos quando me separei e faço parte de uma geração em que amantes são permitidas, mas o casamento é eterno".

A paciência de Isabella ganhou a admiração de Luiz e venceu as resistências:

"Eu sentia que ele me amava e queria ficar comigo, mas lutava contra".

O casal está junto há sete anos, Isabella continua ciumenta e a família de Luiz ressentida: "Eu era um santo, ajudava todo mundo. Depois que me separei, me tornei o pior homem do mundo. Minhas filhas não aceitam até hoje".

Isabella, ao contrário dos filhos de seu amado, afirma que o companheirismo que encontrou, com o homem seis anos mais novo que seu pai, é único: "Existe uma parceria que nunca imaginei ser possível. Nossos interesses se entrelaçam. E nossas diferenças não importam. A temperatura da água do banho que eu gosto é diferente da dele. Mesmo assim, tomamos banho juntos", comenta ela.

E ele confirma: "Eu esquentei um pouco a minha água e você esfriou um pouco a sua".

Isabella aprendeu muito com o marido: bom humor - era chata, ansiosa -, ser maleável, diz que está a caminho de aprender a ganhar dinheiro e, o melhor de tudo, a ser feliz.

Luiz, de seu lado, diz que a amada o ensinou a não fazer média, não tentar agradar a todos. Resultado: a vida ficou mais fácil, leve, verdadeira.

Crédito:Anna Beth

Autor:Maira Helena Galvão

Fonte:Universo da Mulher