Rio de Janeiro, 28 de Junho de 2017

Mulheres ainda buscam o Grande Amor

 
Idealização continua sendo obstáculo para as relações da vida real
 
 
 

Tamiles Costa

 

Em oposição às devotadas Mulheres de Atenas, de Chico Buarque, as quais “não têm gosto ou vontade, nem defeito, nem qualidade”, os dias atuais trazem um outro conceito de mulher.

Determinadas, elas mostram que os desejos e a feminilidade não desaparecem com o passar dos anos. Mesmo a partir de concepções realistas sobre o amor, elas se mantêm românticas, apaixonadas e em busca da parceria amorosa ideal para dividir a vida.

São essas algumas das constatações do projeto de extensão do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará, “Critérios de Eleição de Parceria Amorosa de Mulheres entre 40 e 60 Anos de Idade: definição de relacionamento amoroso”, orientado pela professora Regina Célia Brito, com o apoio da mestranda Marilu Cruz e da bolsista Gabriela Ribeiro.

Dividido em três fases de pesquisa, o projeto é resultado de questionamentos a respeito das mulheres após o período reprodutivo.

“Nós nos perguntávamos como essas mulheres, hoje, sobrevivem quase 30% da vida após o período de reprodução? Como escolhem parceiros?”, conta a professora Regina Célia.

Ela explica que, de acordo com a literatura, as mulheres estão naturalmente pressionadas pela busca de um companheiro que ofereça boas condições de sobrevivência aos filhos, porém, se, após ultrapassar a fase de reprodução, a mulher for instruída e possuir um bom emprego, não necessita de alguém que a ajude a enfrentar as contingências modernas, logo, qual seria seu critério de escolha?

Segundo Regina, imaginava-se que elas estariam mais preocupadas com a satisfação pessoal do que com o fato de arranjar alguém para dividir a responsabilidade com a criação dos filhos.

Para investigar essa questão, foram utilizadas amostras de 92 mulheres entre 40 e 60 anos, na primeira fase da pesquisa, e 88 entre 20 e 39 anos, na fase atual.

Todas apresentavam Ensino Médio completo e renda acima de dois salários mínimos. “Construímos um questionário, cuja primeira versão continha muitas questões abertas”, diz a professora. “Na segunda fase do trabalho, categorizamos, de acordo com a literatura, as respostas coletadas e montamos um banco de dados com todas essas informações”, complementa Marilu Cruz.

Conceitos de relacionamento amoroso

A mestranda Marilu Cruz revela que as questões levantadas estavam normalmente relacionadas à formação de vínculo afetivo, indícios de que o parceiro será um bom cuidador tanto das crianças quanto dela, de que irá provê-la e de que tem bons genes – fator ligado à atratividade, à beleza e ao bom desempenho sexual – e é um bom provedor – inteligente, estável e responsável.

A partir desses pontos, foram montadas macrocategorias que agruparam todas as palavras de significados semelhantes citadas, por exemplo: macrocategoria bom provedor.

O que é um bom provedor?

É aquele companheiro que está disposto a investir em uma relação de longo prazo, que tem uma boa situação financeira ou probabilidade de ter. Esses aspectos são indicados, normalmente, pelo grau de instrução do parceiro.

Uma pessoa que tem um nível superior, possivelmente, terá maiores chances de ter um bom emprego, melhor salário e, consequentemente, proporcionar maior estabilidade”, explica Regina Célia.

No final dos anos 2000, devido ao surgimento de muitas questões relacionadas à afetividade, à qualidade do relacionamento amoroso e ao valor atribuído a essas questões pelas mulheres, instalou-se uma vertente do estudo voltada para averiguar essas variáveis.

Para essa investigação, acrescentou-se ao questionário uma lista constituída por seis frases a serem completadas: “relacionamento amoroso é...”, “relacionamento amoroso na família de origem é...”, “relacionamento amoroso na família que constituí é...”, “relacionamento amoroso na vida dos amigos é...”, “relacionamento amoroso na sociedade de modo geral é...” e “relacionamento amoroso na minha vida é...”.

Gabriela Ribeiro fala que o intuito dessa lista é suscitar a reflexão nas mulheres e descobrir como elas conceituam o relacionamento amoroso em vários contextos.

“A priori, faríamos uma análise qualitativa dos resultados, porém, devido às respostas se darem por meio de adjetivos e substantivos, fizemos uma análise quantitativa”, conta.

Gabriela relata que, ao analisar como essas mulheres com quase 60 anos conceituam relacionamento amoroso, se percebeu uma grande ocorrência de idealização do amor como algo eterno e duradouro.

Idealização, contradição e afetividade

A partir da análise da lista de complementação de frases, constatou-se que, em muitos casos, as mulheres colocam o relacionamento amoroso como algo maravilhoso no plano da idealização, porém, quando isso passa para a vida prática, é concebido como algo ruim, uma experiência dolorosa.

Essa situação é vista de modo negativo, principalmente, em relação à sociedade em geral, o relacionamento amoroso está perdido, é inexistente e vulgar.

Quanto à família de origem, há uma repetição da forma como esta estabelecia a questão do relacionamento amoroso, na família que ela constituiu.

Segundo a professora Regina Célia, é na comparação dessas frases que será possível compreender a maneira como as mulheres vivem, de fato, um relacionamento amoroso.

“A última frase ‘relacionamento amoroso na minha vida é...’ constitui a realidade. Nela, há relatos contraditórios. Como um relacionamento amoroso pode ser uma coisa tão maravilhosa, desejada por todas as pessoas, logicamente por elas, mas que, quando se volta à vida em sociedade, é inexistente, sendo que a mulher é parte integrante da sociedade e não está alheia a ela?”.

A professora relata que a mulher, quando está avaliando o ambiente em que vive (a sociedade), sempre vê os relacionamentos como de má qualidade – uma constante tanto nas mulheres em período reprodutivo quanto nas demais.

“Cada uma percebe a sociedade como um lugar agreste onde as relações são muito complicadas, onde as pessoas de fora estão se relacionando de maneira rasteira. Apesar da idealização, elas acham impossível existir, no contexto social, uma boa relação. Nesse momento, há um choque, uma contradição”, diz.

Companheiro e bom provedor

A procura por um relacionamento amoroso é constante, ainda que as experiências anteriores tenham sido ruins. “Mesmo que eu tenha vivido uma má experiência, continuo procurando um novo parceiro. Todos acham que um dia vai acontecer o grande amor perfeito”, ressalta Regina. Ela sugere que essa idealização seja um obstáculo no desenrolar da vida conjugal.

Além dos anseios da mulher em relação ao companheiro, existe o fato de que um relacionamento engloba a família e os filhos, principalmente, entre as mulheres de 40 a 60 anos. “Algumas dizem que relacionamento amoroso é ver o filho se formar, crescer. Não é algo tão voltado para o parceiro ou para ela, como mulher”, afirma Gabriela Ribeiro.

A pesquisa mostra que, independente da idade, a formação de vínculo é o aspecto mais presente. Ele está relacionado ao companheirismo, ao parceiro atencioso e apaixonado.

Em segundo lugar, vem o bom provedor, seguido do relacionamento de longo prazo. Nos novos rumos da pesquisa, o projeto pretende estudar mulheres de baixa renda e relacionamentos homoafetivos.

“O que temos de mais importante é essa necessidade de nos ligarmos afetivamente a outras pessoas, seja de maneira idealizada, seja realista. No fundo, todos julgam importante ter uma relação afetiva”, conclui a professora Regina Célia.

 

 

Crédito:Luiz Affonso

Autor:Maria Isabel O. Mendes

Fonte:Universo da Mulher