Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 2017

Uma Era de Transtornos Alimentares

Uma  Era de Transtornos Alimentares
"Viver de regime’, ‘jejuar’, usar indiscriminadamente inibidores de apetite, laxantes, diuréticos, hormônios tireoideanos ou qualquer remédio que apregoe a perda de peso, e nos intervalos, comer compulsivamente... Esses comportamentos podem ser evidenciados por qualquer um de nós numa amiga, prima, colega de trabalho ou até em nós mesmos.
 
 
“Mais do que uma atitude irresponsável, estes sinais podem se constituir em indícios de uma doença genericamente denominada de transtorno alimentar. Servem também como alerta para um problema mundial que atinge 1-5% da população feminina entre 18 e 40 anos”, alerta a médica endocrinologista e nutróloga Ellen Simone Paiva, diretora-clínica do CITEN, Centro Integrado de Terapia Nutricional.
 
Atualmente, os transtornos alimentares fazem parte da nossa realidade, são vivenciados por familiares que lutam contra um mal pouco definido e pouco conhecido, que acomete adolescentes e adultos jovens, deixando-os vulneráveis a outros transtornos afetivos e de humor, alterando-lhes o comportamento e pondo-lhes a saúde física e mental em risco de humor, onde a depressão se instala.
 
O distúrbio alimentar preocupa famílias e induz à reflexões sobre o comportamento familiar.
 
Qualquer um pode cometer um abuso alimentar esporadicamente, como comer grandes volumes de alimento em fases de ansiedade, ficar sem comer para entrar em um vestido de festa, se preocupar com a silhueta, mesmo ela estando maravilhosa.
 
 
 
“Entretanto, os transtornos alimentares não são nada disso. Tratam-se de um comportamento alimentar aberrante e repetitivo, uma doença grave, na maioria das vezes, associada a quadros depressivos e ansiosos, quando há nítida sensação de incapacidade de frear o impulso de comer em demasia ou a busca por um corpo magro que nunca atende aos próprios padrões de beleza, uma sensação eterna de estar gorda e uma necessidade imensa de conter o impulso alimentar, a qualquer custo. Há várias formas de se manifestarem: anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno compulsivo do comer noturno e a síndrome do comer compulsivo são distúrbios freqüentes em sociedades que desenvolveram a ‘cultura do esbelto’ ”, diz a endocrinologista.
 
 
A anorexia
 
“O medo é pavoroso. Medo de engordar. Ela  se sente ameaçada o tempo todo. Uma festa, um passeio, um almoço em família ou um encontro com os amigos na lanchonete. Tudo é motivo de risco e sofrimento. Risco de engordar. Então ela começa a mudar”, explica a médica. Lentamente... Muitas vezes, a família nem percebe que aquela filha tão querida e equilibrada está passando por um grave processo psíquico, que a levará, progressivamente, a um estado de tamanha insatisfação com o próprio corpo, temor intenso de perder o controle sobre si e a uma necessidade desesperada de conter a ingestão de alimentos.
 
Talvez os rigorosos padrões atuais de beleza possam estar envolvidos na doença, talvez as experiências dos filhos ao compartilhar as dificuldades das mães que desejam sempre emagrecer, talvez a anorexia se origine no seio familiar de alguma forma, talvez influências genéticas... “Certamente, não são somente estes fatores. A doença tem causas mais complexas, a própria predisposição às graves distorções psíquicas”, afirma Ellen Paiva. De acordo com a psicologia, há um grande vazio existencial e um grande apego ao corpo psíquico infantil, de modo que qualquer mudança corporal, perfeitamente normal na puberdade, seja percebida como ameaçadora.
 
As estatísticas apontam uma prevalência de cerca de 0,5-1%, ou seja, um caso de anorexia a cada 100-200 adolescentes do sexo feminino, na faixa etária de 15 a 19 anos. Há nítida prevalência do problema no sexo feminino, com 90% dos casos diagnosticados. “Com o tratamento, somente 40% se recuperam completamente e não voltam a apresentar outros episódios da doença. Outros 30% continuam indefinidamente com alguns sintomas e podem evoluir para bulimia nervosa”, explica a nutróloga.
 
As comorbidades mais freqüentes são a depressão e a ansiedade em suas mais variadas formas. O restante dos pacientes tem curso grave, com complicações físicas e psicológicas. A taxa de mortalidade pode chegar a 20%, em razão das complicações decorrentes da própria doença e do suicídio.
 
Inicialmente, a paciente com anorexia expressa uma preocupação com o peso corporal e começa a se interessar por dietas e pelas calorias dos alimentos. “Inicialmente, a atitude é motivo para elogios dos pais e familiares. Progressivamente, ela começa a abolir de suas dietas os alimentos mais calóricos, principalmente, gorduras e carboidratos. Começa a chamar atenção pelo rigor do controle, pela não concessão de nenhuma regalia, nem a mais deliciosa, nem na ocasião mais festiva”, alerta a especialista.
 
Nesse momento, seu peso já está claramente abaixo da média e ela continua comendo somente alimentos light e diet e usando roupas mais largas, afirmando, sem constrangimento algum, estar muito gorda. “Nessa fase, já podemos notar a doença avançando através da distorção da imagem corporal, a paciente se examina o tempo todo e se olha muito no espelho. Progressivamente, passa a abolir a carne, o leite e derivados. É comum surgir o vegetarianismo, não em razão de uma filosofia de vida, mas pelo fato de a carne conter uma quantidade razoável de gorduras”, diz Ellen Paiva. O jejum também é freqüente e muitas vezes, a paciente deixa de ingerir líquidos com a alegação que aumentam o volume se seus abdomens.
 
As pacientes anoréxicas, segundo a médica, costumam esconder alimentos em bolsos, banheiro e armários; se alimentam muito lentamente e cortam os alimentos em pedaços muito pequenos; mastigam lentamente, sempre uma pequena quantidade de alimentos, sugando a parte líquida e cuspindo a parte sólida; fazem um cardápio extremamente monótono, com poucas refeições diárias; observam as refeições dos outros com curiosidade e insistem para que eles comam mais; preparam deliciosos pratos para a família, sem nada provar; geralmente, não comem na presença de outras pessoas; interessam-se por tudo que diga respeito à culinária e à dietas e têm muito conhecimento sobre as calorias dos alimentos e as dietas da moda; fiscalizam a despensa e a cozinha de suas casas e fazem supermercado.
 
 
A difícil tarefa de tratar estas pacientes
 
As pacientes anoréxicas desconfiam da maioria dos profissionais de saúde, pois sabem que todos têm muita preocupação com sua alimentação. “Geralmente, afirmam saber muito bem como se alimentar e não seguem as orientações nutricionais prescritas. Discutem sobre cada item da dieta proposta, as alternativas e possibilidades de substituição, mas continuam comendo da maneira como acreditam ser a melhor”, explica a diretora do CITEN.
 
Não têm vergonha de argumentar que estão gordas, mesmo estando esquálidas. Não escondem a preocupação com o peso e não se intimidam ou se sensibilizam com a alegação de que podem adoecer ou morrer. “Quando ensinamos uma dieta elas não fazem, quando passamos uma sonda nos casos graves, elas arrancam. Se recusam a aceitar qualquer atitude que as façam engordar. Sentem-se mais forte quando não comem e deliciosamente no controle”, alerta Ellen Paiva.
 
A anorexia é uma doença grave, multifatorial, com comprometimentos físicos e psíquicos. “Portanto, necessita de muitos profissionais em seu tratamento, notadamente do médico, de psicólogos e nutricionista. A família deve apoiar o trabalho da equipe e precisa ser muito bem orientada”, diz a endocrinologista.
 
A bulimia
 
Embora se trate também de um distúrbio alimentar, a bulimia tem características muito distintas da anorexia. É caracterizada por episódios recorrentes de "orgias alimentares", os acessos bulímicos, nos quais o indivíduo come uma grande quantidade de alimentos como se estivesse faminto, em um curto espaço de tempo. Depois, perde o controle sobre si e tenta vomitar e/ou evacuar o que comeu com a finalidade de não ganhar peso.
 
“Ao acessos bulímicos ocorrem, duas ou três vezes por semana, e são geralmente acompanhados por atitudes compensatórias para o controle de peso, como o uso de medicamentos - diuréticos, laxantes e inibidores de apetite – excesso de exercícios físicos, realização de dietas drásticas, longos períodos de jejum e vômitos induzidos. Entretanto, nem todos os pacientes com bulimia nervosa induzem vômitos, e aqueles que o fazem, dificilmente, assumem o fato”, explica Ellen Simone Paiva.
 
A bulimia acomete, predominantemente, o sexo feminino, especificamente, casos em que a preocupação excessiva com o peso e a forma corporal são a regra. O aparecimento da doença dá-se no final da adolescência, início da idade adulta. Segundo Ellen “na bulimia, diferente da anorexia nervosa, as pacientes não são facilmente identificadas. Bulímicas não assumem seu transtorno alimentar e até se envergonham dele, ao contrário das anoréxicas, que mostram suas faces e seus tórax esqueléticos livremente, como que desafiando a percepção de todos”, diz.
 
A paciente bulímica, muitas vezes, realmente tem sobrepeso e até obesidade. As bulímicas tentam compensar seu vazio interno com o excesso de alimentos. Comem de forma alucinada, desregrada, compulsiva, buscando uma sensação de preenchimento e uma diminuição da angústia. “A sua marca emocional é a falta do controle das próprias emoções. Apesar disso, são festivas, alegres, sociáveis. Freqüentam os consultórios dos endocrinologistas e nutrólogos durante anos, sem manifestar sintomas compulsivos e purgativos” afirma a endocrinologista.
 
A purgação é uma característica marcante da bulimia e se caracteriza pela auto-indução de vômitos, uso indevido de laxantes, diuréticos e enemas. A bulimia pode apresentar-se, também, sem purgação, quando períodos de compulsão alimentar acompanham a prática de exercícios físicos exaustivos e jejuns prolongados. Todas essas atitudes têm o objetivo de compensar os períodos de compulsão alimentar.
 
 
O desafio de tratar a paciente bulímica
 
A médica afirma que “a bulimia comumente vem acompanhada - como os demais transtornos alimentares - de elevadas taxas de incidência de transtornos afetivos como a depressão, de transtornos ansiosos como a ansiedade generalizada, a fobia social e o transtorno obsessivo-compulsivo”. São muito comuns ainda o abuso de álcool e drogas, segundo Ellen Paiva.
 
O tratamento da bulimia nervosa, assim como o dos demais transtornos alimentares, envolve a equipe multidisciplinar de atendimento, composta por médico, nutricionista e psicólogo ou psicanalista. “A terapia cognitivo-comportamental, a psicoterapia e a psicanálise podem ser utilizadas juntamente com a orientação nutricional. Alguns medicamentos, principalmente, alguns antidepressivos e sacietógenos podem ser aliados importantes do tratamento. Fundamental, também, é o papel da família como suporte no tratamento desses pacientes, fornecendo apoio e compreensão, evitando atitudes de julgamento e crítica”, diz a endocrinologista Ellen Paiva.
 
 
Comer Compulsivo
 
Não há nada iminente. Mas a pessoa parece esperar por algo que irá acontecer... Nenhum resultado a ser conhecido nos próximos dias. Mas a pessoa não se contém, como se existisse a possibilidade de acontecer diversas coisas importantes... O dia-a-dia imprime um sentido de espera, de agitação interior, de grande expectativa. A tradução desse estado de coisas? A queixa comum a todos os que sofrem com estes sintomas? Ansiedade. Sensação de faltar fatos, sobrar tempo, de grande vazio. Segue-se uma inquietude, a sensação de falta de alguma coisa e a vulnerabilidade no estado de controle psíquico, tornando claro que Freud estava certo quando propôs a existência daquela parte do psiquismo que escapa ao nosso controle e influencia o nosso comportamento.
 
A depressão também acompanha os pacientes que apresentam a Síndrome do Comer Compulsivo, embora menos freqüentemente. “À medida em que procuramos entender a relação entre a obesidade e uma série de transtornos psiquiátricos,  podemos constatar que um número muito grande de obesos preenche os critérios diagnósticos de algum dos transtornos alimentares. E dentre estes, a Síndrome do Comer Compulsivo talvez seja o mais freqüente transtorno apresentado, podendo ser esporádico ou periódico”, explica a médica.
 
Episódios compulsivos da Síndrome do Comer Compulsivo podem fazer parte da vida da maioria das pessoas, mas quando se tornam freqüentes, eles podem comprometer o peso corporal, a saúde física e mental, o convívio familiar e social e até a vida financeira das pessoas, que passam a gastar com a alimentação, uma  quantia muito além de suas possibilidades.
 
Os episódios compulsivos não são simplesmente comer muito em pequenos espaços de tempo. Há algo muito característico nesses casos: a impossibilidade de se conter e a perda do controle sobre a alimentação. “Muitas vezes, o paciente come tudo aquilo que ele encontra na geladeira ou na despensa. Come a fruta, o iogurte, a bolacha, um resto de suco, arroz frio, leite, chocolate e vai comendo... Gostando ou não do que ele encontra. Muitos pacientes comem até a exaustão e a dor física”, diz Ellen Paiva.
 
Depois, surge a culpa, a tristeza, a vergonha, a decepção por não ter conseguido se conter. “O que distingue esses pacientes dos que apresentam bulimia é que esses param neste ponto. Os bulímicos realizam uma variedade de atitudes compensatórias como o vômito auto-induzido, o uso de drogas laxantes, diuréticas, hormônios tireoideanos, anfetaminas, praticam exercícios físicos excessivos ou fazem dietas drásticas que chegam ao jejum”, explica a endocrinologista.
 
 
Tratando o comer compulsivo
 
 
“Há outros fatores envolvidos na etiologia dos transtornos alimentares e não sabemos se comemos por estarmos ansiosos ou se comer compulsivamente vai nos deixando ansiosos. Mas não há dúvidas, as duas coisas geralmente andam juntas”, diz a diretora-clínica do CITEN.
 
A terapia cognitivo-comportamental, a psicanálise e os medicamentos antidepressivos são eficazes, pelo menos a curto prazo, para melhorar os sintomas da Síndrome. “O paciente deve ser tratado com nuances individuais e com abordagem multidisciplinar, além da importante participação da família em todo o processo de recuperação”, afirma Ellen Paiva.
 

Ellen Simone Paiva
 
Médica especializada em endocrinologia e nutrologia. Mestre em Medicina na área de nutrição e diabetes pela USP. Titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, SBEM e da ABRAN, Associação Brasileira de Nutrologia. Diretora clínica do CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional.
 
 
 
CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional
Endereço: Rua Vergueiro, 2564.
Conjuntos 63 e 64
Vila Mariana
São Paulo-SP
CEP: 04102-000
Atendimento: De segunda a sexta.
Horário: 08h30min às 18h30min horas.
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Crédito:Fatima Nazareth

Autor:Márcia Wirth

Fonte:Excelência em Comunicação