Rio de Janeiro, 18 de Julho de 2019

Padre José Maurício

Em cartaz no teatro, depois de 173 anos no ostracismo. Autor de mais de 200 obras musicais, regente de orquestras e corais, iniciadas pelos idos de 1794, quando obrigado a compor peças para as missas dominicais. O que o alçou a Mestre de Capela da Catedral do Rio de Janeiro, encarregado também pelo Senado de preparar a música para festividades oficiais.
 
 
Apesar de sua precocidade, somente a vocação religiosa poderia abrir caminho para o seu talento, visto ser pobre, mestiço e filho de escravos alforriados. Como não queria vivenciar Deus na castidade, sua mãe alertou-o quanto ao impasse: se o amor for uma ilusão, Deus lhe dará guarida para resistir e sofrer calado; se verdadeiro, quebre os votos, seus filhos responderão por sua escolha. Se virá alegria ou fardo, não cabe pensar no futuro, o seu talento fará História no presente.
 
 
Para aceitá-lo como sacerdote, a Igreja instaurou um processo a fim de comprovar os sentimentos católicos de seus ascendentes. Confirmados os “bons costumes” e o batismo de seus pais e avós, ser negro era considerado um defeito. Havia que pedir dispensa do defeito da cor para ser atendido. A falta de patrimônio também era um agravante. Um comerciante abastado o livrou da condição de zé-ninguém com uma casa na atual rua das Marrecas.
Seu prestígio atraiu o interesse de uma donzela, zé-ninguém como ele havia sido, que não se intimidou com a diferença de idade ao lhe dar 5 filhos. Que ele não pôde legitimá-los, amor e família vividos clandestinamente. O que não impediu a troça do povo com a mulher do padre, levando-a a abandoná-lo quando sua saúde começou a debilitar somada à penúria financeira.
 
 
A chegada de D. João VI e sua comitiva aumentou seu prestígio, ao ser encarregado de reproduzir as cerimônias religiosas tal como em Lisboa, tornando-se o organista da corte. Foi a gota d’água para a explosão da inveja e do preconceito dos músicos portugueses, em uma enxurrada de intrigas e maledicências, até de seus admiradores. A ponto de ser rebaixado a arquivista da Biblioteca Real, atrasarem a sua paga e endividá-lo, obrigando-o a hipotecar sua casa.
 
 
Seus piores e melhores momentos foram quando chamado a compor um réquiem e um ofício - sua especialidade na música sacra - para encomendar a alma da rainha D. Maria I. Ao mesmo tempo em que sua mãe morria sem que tenha podido sequer assisti-la na agonia final. Compôs chorando a mãe, seu guia.
 
 
Seu pior e melhor momento foi quando convidado por Sigismund Neukomm, integrante da missão artística francesa que veio ao Rio em 1816, a partir para a corte austríaca e ver seu talento reconhecido prosseguir na evolução do espírito que sua música exigia. Arqueado pelos duros embates contra a discriminação, receou enfrentar outra realidade e restar só em plagas distantes, preferindo morrer na extrema miséria em 1830. 
 
 
A arte exige que você seja fiel e se comprometa para que ela corresponda. Tem que ser um caso de amor verdadeiro, que não comporta vacilo ou escapismo, a entrega tem de ser incondicional. É o único campo humano onde sonhos são realizados. E renovados. Para que se restaure o prazer. O amor busca este êxtase e invariavelmente dá com os burros n’água.
 
 
 
 

Antonio Carlos Gaio

           

 

Crédito:Antonio Carlos Gaio

Autor:Antonio Carlos Gaio

Fonte:Universo da Mulher