Rio de Janeiro, 16 de Julho de 2019

Stalin, herói de guerra

O período de 1936-38 é o mais complexo e definidor do século XX, em que se emaranham o apogeu do nazismo de Hitler e do fascismo de Mussolini com o clímax dos grandes expurgos de Stalin, ao se apropriarem do cenário da Guerra Civil Espanhola, no último ensaio para a 2ª Guerra Mundial. Internacionalizando um inevitável confronto da direita, representada no canto do ringue pelo nazifascismo acumpliciado à monarquia e clericalismo espanhol - vulgo, TFP, tradição, família e propriedade. Com a esquerda, representada por diversos socialismos em brigadas internacionais formadas por operários e intelectuais de 53 países, 40 mil voluntários no intento de construir um novo ideário socialista.
 
 
 
Uma verdadeira cruzada que reuniu os comunistas do mundo inteiro apoiados pela União Soviética com armas e munições. Ao se alinhar com os franquistas e seu Generalíssimo, Hitler os transformou em cobaia, quando testou seus aviões Junker e Heinkel em bombardeios a Madri e Guernica - primeiro ataque aéreo da história a alvo civil, mesmo considerando os bascos guerreiros, um povo eternamente em pé-de-guerra.
 
 
 
Ao pretender organizar a guerra da esquerda ordenando ao Partido Comunista espanhol que suprimisse as milícias de cidadãos armados e as integrasse a um exército regular, Stalin acabou com a graça da guerra para anarquistas e trotskistas. Mulheres tiveram que ir para a cozinha e cuidar dos feridos, homens vestir uniformes. O que provocou mais um cisma numa esquerda que ainda não atingira a maioridade, entre o realismo socialista stalinista pró-republicano e o incurável romantismo anarco pró-revolução permanente, falecido nos trens estreitamente vigiados coalhados de judeus. Acelerando uma das maiores derrotas que a esquerda já sofreu.
 
 
 
Em vista de os expurgos já representarem pesadas baixas nos principais postos de comando soviético, Stalin resolveu suspender o suporte militar dado aos republicanos sem qualquer aviso prévio. Aos poucos, sem que se apercebessem, para não causar maiores traumas. O recado já havia sido passado por Hitler, e de bom tamanho, urge proteger o patrimônio comunista do rolo compressor nazista.
 
 
 
Muito embora, os democratas identificados com os ideais americanos e ingleses habitualmente colassem a ideologia do nazismo no comunismo. Ao Hitler dissolver os partidos políticos, criar a Gestapo e campos de concentração, eliminar seus opositores na famosa “Noite dos Longos Punhais”, inclusive os de seu Partido Nacional-Socialismo. No entanto, sua doutrina tinha muito mais de nacionalismo que socialismo, em favor dos trabalhadores em pleno emprego numa economia reabilitada às custas do armamento e pesquisas científicas voltadas para a produção bélica e iminente eclosão de guerras.
 
 
 
Ao Hitler preconizar o fim da burguesia, se referia a salvar a Alemanha do capitalismo internacional, com o confisco de propriedades estrangeiras e fim das cobranças exorbitantes de juros por judeus sem nação constituída, cuja pátria repousava no controle do sistema financeiro internacional. A raça alemã, o povo alemão, a síntese da hegemonia do sentimento nacionalista exaltado, livre de qualquer influência estrangeira, era a única classe que deveria existir.
 
 
 
Stalin conhecia bem essa lição, de cor e salteado. Em 1939, enfrentou sua prova mais difícil, a hora e a vez de passar pelo buraco da agulha ao assinar um pacto de não-agressão (Ribbentrop-Molotov) com a Alemanha. Hitler sabia que iria à guerra com a Inglaterra e França e não queria repetir o erro de 1914, quando os alemães lutaram em duas frentes. O acordo visava, pois, a neutralizar o Exército Vermelho. Em contrapartida, Stalin precisava reorganizar suas Forças Armadas e completar a transferência do parque industrial soviético para a parte asiática do país, a fim de manter sua capacidade ofensiva, na eventualidade de uma invasão.
 
 
 
A conseqüência foi a partilha da Polônia entre alemães e soviéticos. A Alemanha partiu para recuperar o chamado Corredor Polonês, estreita faixa de território que dava acesso ao atual porto de Gdansk, perdido em função da derrota na 1ª Guerra Mundial pelo Tratado de Versalhes. Com um peteleco, a Polônia é ocupada em três semanas. A fim de resguardar a costa báltica, a União Soviética anexou a Lituânia, Letônia e Estônia, levando quatro meses para ocupar a Finlândia, com elevadas baixas e danos em seus tanques provocados por coquetéis Molotov, criados especialmente para o evento.
 
 
 
Em menos de dois anos, a História se repete duas vezes. Na primeira, Hitler é assaltado por Brutus que esfaqueia pelas costas César, o czar Stalin - se voltou contra seu aliado e invadiu a Rússia. Na segunda, o General Inverno se encarrega de soterrar o inimigo, mais uma vez. O realismo socialista não conjuga com fábulas, prefere a versão mitológica do triunfo em conseguir contê-los graças à industrialização rápida e aos planos qüinqüenais, que permitiram um crescimento econômico e tecnológico que superaram a mais eficiente máquina militar da Europa.
 
 
 
O cerco de Leningrado durou 900 dias - de 1941 a 1944 -, sob ininterruptos bombardeios, que a isolou do resto da Rússia e a transformou num monte de escombros, debaixo de vociferações hitleristas de fazê-la sumir da face da Terra. O pobre diabo não sabia que os tesouros artísticos do Hermitage, palácios e igrejas, bem como maquinários e equipamentos industriais, tinham sido evacuados na direção leste, sabe Deus em que cova. Morreram a bala mais de 660 mil pessoas, ou por disputa de cartões de racionamento ou por um pão francês vagabundo e duro, o canibalismo era uma alternativa. Encarniçada a disputa pela posse de cada casa, fábrica e edifício em ruínas, o território conquistado num dia era perdido no seguinte.
 
 
 
Terrível o custo em vidas humanas na 2ª Guerra Mundial, os russos contribuíram com 27 milhões. Os Aliados nunca reconheceram, na exata medida, a estóica resistência na batalha de Stalingrado como uma epopéia, um marco na vitória contra o nazismo, a senha para intensificar os movimentos de resistência em países ocupados. O destino da Europa teria sido outro se não fora pelo avanço decidido e vigoroso das tropas soviéticas através do flanco oeste. Foram os primeiros a adentrar Berlim para explodir o símbolo da águia na cúpula do Reichstag (Parlamento alemão), salvando a Europa mais uma vez, anteriormente a haviam livrado da sanha dos mongóis. No passado, o anteparo, no futuro, um aríete.
 
 
 
Mais uma nação que explorava a visão aguda da águia para nortear seu rumo, o que não impediu Hitler de suicidar-se em 30 de abril de 1945, ao não agüentar a humilhação da derrota e da ocupação de Berlim pelos bolcheviques, conforme os chamava. O último comunista que tumultuara Berlim havia sido ela, Rosa Luxemburgo, assassinada em 1919 por futuros nazistas. “Uma mentira dita 100 vezes torna-se verdade”, proclamava Goebbels, o propagandista de massa do nazismo que ditava regras sobre o que as instituições educacionais deveriam ensinar, no desenrolar do sonho do Reich de mil anos de Adolf Hitler. Sacrificou seus seis filhos antes de também se suicidar.
 
 
 
Os Aliados poderiam ter colhido no Dia D um fracasso rotundo. Os americanos não teriam poupado tantos soldados no front europeu, para azar dos japoneses, a guerra prioritária depois de Pearl Harbor. Berrante a injustiça na transcrição da página heróica dos comunistas na história oficial, ao conferir exclusividade no patriotismo aos soldados aliados na defesa dos valores democráticos contra o nazifascismo, apenas porque o comunismo representava erva daninha, o flagelo de uma epidemia no inconsciente coletivo do chamado mundo livre.
 
 
 
De pouco valeu a guerra de propaganda capitalista, o resgate da pátria invadida valorizou o patriotismo soviético na defesa do mundo comunista. Conferiram a Stalin o galardão máximo de herói da guerra e rebatizaram Leningrado de Stalingrado. Se era paranóico ou esquizofrênico, ou se por isso, conseguiu governar tanto tempo ao eliminar toda e qualquer oposição que sobressaísse no poder, pouco importa agora, ao verem a foice e o martelo tremularem no mastro.
 
 
 
Nada como uma boa guerra para alavancar uma economia à custa de mortos e inválidos, ao rearranjar a sociedade abrindo espaço para que a geração herdeira liberte seu talento e construa sobre a realidade em ruínas. Na iminência de se transformarem em nazistas, os comunistas se olharam no espelho, jogaram as dissensões e mazelas debaixo do tapete, e expulsaram mais um invasor de olho no latifúndio siberiano. Na iminência de rasgarem em pedacinhos a honra da pátria, se uniram em defesa de seu solo e acabaram por fortalecer mais ainda o comunismo, misturando aos despojos de guerra as cinzas dos expurgos.
 
 
 
Virada a página bolchevique. A União Soviética era o país mais poderoso da Europa e da Ásia, posição que Stalin se apressou em reforçar erigindo barreiras de proteção compostas por países amigos sob o guarda-chuva comunista. Na conferência de Yalta, Roosevelt e Churchill reconhecem tacitamente a Stalin uma “zona de influência” nos países da Europa Oriental, deixando sob seu controle Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, Iugoslávia e Albânia.
 
 
 
A vulnerabilidade aos invasores estrangeiros - de Gengis-Khan a Napoleão e Hitler - legou uma herança de extremos cuidados quase paranóicos, deixando em segundo plano a preocupação com a dissensão e subversão doméstica. Em período de détente, é de bom alvitre proteger a fronteira ocidental, outrora desguarnecida, com os países-satélites, à frente. Na retaguarda, as repúblicas do Báltico, alinhavadas à Carélia, conquistada à Finlândia para garantir o acesso ao Mar Branco até Murmunsk no extremo norte, o que implicou na evacuação de 400 mil finlandeses. No miolo, as repúblicas da Bielo-Rússia, Ucrânia e Moldávia. Ergue-se a cortina de ferro, na prega costurou-se Geórgia, Armênia e Azerbaijão. 
 
 
 
De 1947 a 1950, é dada a partida na Guerra Fria, com Stalin patrocinando a difusão das glórias do socialismo e estendendo sua área de influência até a China, que se tornara comunista. Iniciou uma política de culto à sua personalidade, através de maciça propaganda, sob os auspícios de som e luz da explosão da primeira bomba atômica. Permanentemente ao seu lado, Beria tornou-se o alter ego do seu chefe.
 
 
 
Beria não fazia parte da geração de revolucionários que lutou contra o czar. Mas era georgiano como Stalin e, na condição de líder do Partido na Geórgia, conquistou sua confiança. Na chefia da NKVD desde 1938, Beria tornou-se responsável pelos serviços de espionagem e contra-espionagem, bem como pela segurança interna, o que significou a tortura e execução dos "inimigos do povo" antes e durante a 2ª Guerra. Também comandou os gulag, supervisionou a transferência do parque industrial, à medida que os alemães avançavam, e controlou o projeto soviético da bomba atômica. Esta simbiose teve fim com a morte de Stalin em 1953, quando foi executado ao almejar ocupar o trono.
 
 
 
Stalin foi um divisor de águas. O responsável pela transformação de um país superatrasado em uma superpotência nuclear. Apesar da violência institucionalizada que o classificam como o Gengis-Khan do século XX. Se descontarmos o desmoronamento do czarismo, a 1ª Guerra Mundial, a entrada do comunismo em cena, o conflito entre vermelhos e brancos, o desmantelamento da economia diante da nova ordem econômico-social, em pouco menos de 30 anos, o socialismo fez da União Soviética uma das maiores forças econômicas e militares do planeta. Um período marcado por uma grande centralização de poder nas mãos de Stalin, que elevou o nível cultural e técnico, bem como promoveu reformas que melhoraram em muito as condições de vida da maioria da população soviética - a despeito de tê-los marcado a ferro e fogo através da poderosa burocracia da administração pública controlada pelo Partido Comunista.
 
 
 
 
 
Antonio Carlos Gaio

Crédito:Antonio Carlos Gaio

Autor:Antonio Carlos Gaio

Fonte:Rússia de todos os Czares