Rio de Janeiro, 24 de Outubro de 2019

Lenin e a Revolução Russa

Eis então que apareceu Vladimir Ilitch Ulianov, conhecido por Lenin, que iria mudar o curso da História russa mais profundamente que ninguém, depois de Pedro, o Grande. Trazia debaixo do braço a doutrina do comunismo.
 
 
O comunismo é uma doutrina política, econômica e social baseada na propriedade coletiva dos meios de produção. Tem como ideal a primazia do interesse comum da sociedade sobre o de indivíduos isolados. Através do Manifesto Comunista, escrito em 1848 pelos pensadores alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), o comunismo surge como o estágio final da organização político-econômica humana. A sociedade viveria num coletivismo sem divisão de classes nem a presença de um Estado coercitivo. Prevêem um estágio intermediário de organização, o socialismo, que instala uma ditadura do proletariado para promover a destruição completa da burguesia, abolir as classes sociais e desenvolver as forças de produção de modo que cada indivíduo dê sua contribuição segundo sua capacidade e receba segundo suas necessidades.
 
 
Lenin não parecia talhado para o papel de inflamar os espíritos, oriundo de uma família bem posicionada que lhe proporcionou uma educação clássica. Quando seu irmão foi executado ao conspirar para assassinar o czar Alexandre III, em 1887, descobriu sua veia de incendiário.
 
 
Marxista em 1891, Lenin foi preso em 1895 e enviado à Sibéria. Libertado em 1900, deixou a Rússia e viveu em Genebra e Paris durante a maior parte dos 17 anos que se seguiram. Preparando a revolução dos bolcheviques que formavam a ala esquerda do partido dos trabalhadores, a socialdemocracia russa.
 
 
Nem ele nem outros bolchevistas tomaram parte em movimentos insurgentes anticzaristas. Foi com a ajuda da Alemanha, ainda em guerra com a Rússia e evidentemente interessada em agravar os tumultos nesse país, que ele voltou a Petrogrado em abril de 1917, encontrando um governo provisório dirigido por Kerenski e hostil ao partido bolchevista.
 
 
Com a queda da monarquia, a coluna dorsal do chamado estado burguês foi quebrada, seus interesses sempre foram contrários às aspirações do povo, que se tornou senhor do seu próprio destino. Os camponeses representavam 85% da população e queriam a posse da terra, custe o que custasse, já, sem trâmites nem cerimônias, imprensados entre os latifundiários e os kulaks (pequeno proprietário de terra próspero) - a burguesia rural. O operariado exigia a reversão imediata das condições animalescas para humanas na jornada de trabalho. Em ambiente febril favorável a transformações radicais, urgia organizar o problema puramente econômico.
 
 
Acima de tudo, o problema político, através da ressurreição dos sovietes operários cujo embrião datava de 1905, que passaram a dar a palavra de ordem para toda a massa trabalhadora do país, se impondo progressivamente sobre o exército, diante de uma burguesia capitalista fraca, desorganizada, sem tradição nem experiência histórica. 
 
 
Era necessário audácia, mais audácia e sempre audácia, preconizada por Danton 120 anos antes. A cessação imediata da guerra contra a Alemanha e a desmobilização dos soldados voltada para a construção do verdadeiro socialismo, com a convocação urgente de uma Assembléia Constituinte. Entretanto, o governo de Kerenski, que era essencialmente dominado por mencheviques, liberais e burgueses, ainda contaminados pelo vírus do czarismo, perdeu rapidamente sua credibilidade ao não cumprir as promessas e ver engrossar a fila do pão.
 
 
Finalmente, na véspera de 7 de novembro de 1917 - 25 de outubro segundo o velho calendário juliano ainda em vigor na época -, os membros dos Sovietes, conduzidos por Leon Trotski, ocuparam os palácios oficiais mais importantes e fizeram prisioneiros os ministros do governo provisório. O partido bolchevista assumira o comando dos Sovietes, por meio de um quadro de ativistas de acurada consciência revolucionária, onde militantes, propagandistas, escritores, organizadores e homens de ação, brigadores e obstinados, se instalaram no poder graças ao seu espírito de organização, unidade de ação e transformar em prática a teoria, com o lema de Lenin: “Paz, Terra e Pão”.
 
 
Ou seja, retirada da Rússia na guerra contra a Alemanha, a reforma agrária e a normalização do abastecimento de artigos de subsistência. A fábrica para os operários e a terra para os camponeses. “Todo poder aos Sovietes”, proclama Lenin ao ser nomeado presidente do Conselho dos Comissários do Povo. Em seguida, nacionalizou indústrias e bancos estrangeiros, redistribuiu terras e estabeleceu a ditadura do proletariado, inaugurando a política de comunismo de guerra, sob slogans: “Guerra aos palácios! Paz na moradia dos camponeses!”
 
 
Concederam independência à Finlândia, pela primeira vez, e à Polônia, mas não reconheceram nenhuma dívida contraída pelos czares, espontaneamente institucionalizado como o Dia do Calote. Aboliram a propriedade privada e desmontaram toda ordem baseada no capitalismo, mundo esse estruturado para que não compreendamos tudo que nele acontece de modo que se faça sempre presente a liberdade de expressão.
 
 
Alimentaram a pretensão de compreender e interpretar o funcionamento do sistema, determinando o significado preciso de suas variáveis que compõem a equação do bem-estar da coletividade, através de uma fé inabalável em uma filosofia pura que os fazia enxergar melhor o mundo ao seu redor. A ponto de o milionário Sava Morósov abrir mão de sua fortuna em favor da causa comunista, sendo sacrificado pela própria família como um traidor.
 
 
Todavia, os comunistas ainda não haviam vencido. Logo caem em uma outra guerra, ao se retirarem do front de batalha contra os alemães. A descompressão das nacionalidades oprimidas pela aristocracia propiciou o surgimento de movimentos nacionalistas e tendências separatistas. O governo revolucionário bolchevique, constituído como a República Federativa dos Sovietes da Rússia para defender os interesses de uma população numerosa e miserável, também sofria atentados praticados diariamente pelos contra-revolucionários mencheviques, anarquistas e outros, cujos interesses foram prejudicados.
 
 
Os Aliados iniciam um cerco econômico aos bolchevistas, Inglaterra, Estados Unidos e França perderam seus investimentos com a nacionalização dos bancos, nada será como dantes no quartel de Abrantes. O território russo é invadido pela Turquia e Japão, os britânicos se instalam no Mar Cáspio. Até os poloneses tiram uma casquinha e se apoderam de Kiev. Um desdobramento da 1ª Guerra Mundial se afigura, os bolchevistas começam a perder o controle da situação.
 
 
Em julho de 1918, com a dissolução da Assembléia Constituinte, os sovietes assumem o poder desde a mais pequena aldeia até o topo da pirâmide, em Congresso constituído por Comissários do Povo. Agora é bola ou búrica, russo vermelho contra russo branco, comunistas contra um somatório de contra-revolucionários: proprietários rurais, burgueses, comerciantes, militares e policiais reaças.
 
 
Corria o boato de que um destacamento do Exército Branco se apressava em libertar o czar Nicolau II. Por questão de segurança, ele e sua família já haviam sido autorizados a viajar para a Sibéria num trem particular com a seguinte escala de serviçais: 7 cozinheiros, 10 escudeiros, 6 damas de companhia, 2 criados de quarto, 1 enfermeira, 1 médico, 1 barbeiro, 1 mordomo e 1 enólogo.
 
 
O verão sangrento de 1918 prometia. Os Romanov foram condenados à morte, na calada da noite, a tiros de pistola e golpes de baionetas, e seus corpos levados para uma mina onde se dissolveram em 200 litros de ácido sulfúrico. A militante anarquista Fania Kaplan disparou três tiros no pescoço, no braço e na perna de Lenin, o líder considerado herói pelo povo, gerando graves problemas de locomoção e fala.
 
 
Irrompeu um clamor incontrolável pela punição daqueles que estavam a aterrorizar e impossibilitar o desenvolvimento da Rússia soviética. Os fins justificam os meios, o que importa é construir o Estado comunista e alcançar a ditadura do proletariado, tudo que for realizado para avançar nesse rumo é justificável e revolucionário. Passou-se, então, a combater a violência com uma violência ainda maior, contra todo suspeito de envolvimento em atividades terroristas contra-revolucionárias ou espionagem para as potências estrangeiras.
 
 
Cria-se a Cheka (Comitê contra Atos de Sabotagem e Contra-Revolução), uma polícia secreta nos moldes da Okrana czarista, só que a serviço da causa comunista, cuja função era executar os traidores da Revolução de Outubro sem julgamento. Os primeiros foram os anarquistas. A preferência recai sobre São Petersburgo, rebatizada de Petrogrado na 1ª Guerra Mundial, por ser um nome alemão. Sua fama cultural e espírito de independência tornou-a suspeita perante os olhos dos novos dirigentes. À perseguição maciça, não hesitavam em atirar sobre manifestantes, não havia espaço para sentimentalismo barato. Contra-revolucionário não vinha carimbado na testa, uma ajuda externa de 14 países os sustentavam.
 
 
O respeito à vida humana, o caráter e a integridade revolucionária como base de uma nova ordem social foram repudiados como sentimentos burgueses. Puderam ser heróis e ignóbeis ao mesmo tempo, arrancar confissões e não admitir a inquisição, mentir e difamar em nome do idealismo. Promover execuções, legítimo, do ponto de vista revolucionário.
 
 
Durante os três anos que se seguiram, as forças anticomunistas, constituindo o que se chamava de Exército Branco, combateram o Exército Vermelho. Porém, os ex-oficiais do exército czarista não estavam preparados para combater a natureza ideológica do adversário, a crença era maior, a julgar pelo entusiasmo de Leon Trotski, que se revelou um brilhante estrategista como comandante-em-chefe do Exército Vermelho. Embora mais bem equipado, era numericamente inferior e não contava com a ajuda popular, a ideologia anticomunista só viria mostrar suas garras na Guerra Civil Espanhola.
 
 
O país mergulhou numa anarquia administrativa em meio a pilhagens, chacinas e miséria. O conflito custou a vida de mais de 20 milhões de russos, se somarmos aos abatidos pela fome e 1ª Guerra Mundial. “A força é parteira de toda sociedade grávida de uma nova sociedade”, com o sangue assinaram embaixo de um país em ruínas.
 
 
Em março de 1921, explode a revolta dos marinheiros de Kronstadt, exigindo novos rumos para o comunismo, eleições livres para os Sovietes. Tarde demais, o novo regime já estava implantado, sobrevivera à prova de fogo. Massacrados os sediciosos, surge a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS.
Industrialmente, o mais atrasado de toda a Europa. A abolição do direito de propriedade retirou do mercado ¾ do trigo e despencou a produção industrial numa proporção de 100 para 10. A ruína das terras mais ricas e a requisição dos excedentes dos camponeses pobres diminuíram as provisões familiares, a destruição e desorganização das forças produtivas geraram escassez, uma ruptura perigosa entre o campo e as cidades. O governo decide recuar em suas ambições de implantação imediata do comunismo de guerra e retomar temporariamente a iniciativa privada, com a venda da produção agrícola livremente nos mercados e o pequeno comércio particular - é a NEP, a Nova Política Econômica. Muito embora o Estado retivesse nas mãos os setores mais vitais, como bancos, comércio exterior, mineração e transporte.
 
 
Anos difíceis de inanição provocam o esgotamento e a apatia nas massas, comportamento que favoreceu a implantação da ditadura partidária - proibidas as facções dentro do Partido Comunista, estenderam a ditadura sobre si próprios -, repercutindo negativamente para a causa do socialismo internacional.
 
 
Lenin critica a lentidão do processo pós-revolucionário e sugere ao Politburo (Comitê Central do Partido Comunista) a escolha de um secretário-geral para coordenar as atividades do Partido, incumbido de mediar os interesses entre as lideranças e os correligionários. Um cargo mais burocrático que político, segundo os pensadores bolchevistas, numa apreciação rasa, uma tarefa incômoda como a pedra no sapato. Joseph Stalin, georgiano filho de sapateiro e de lavadeira, foi candidato único.
 
 

Antonio Carlos Gaio 

       

Crédito:Antonio Carlos Gaio

Autor:Antonio Carlos Gaio

Fonte:Rússia de todos os Czares