Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 2019

O bon-vivant

O bon-vivant é o indivíduo que nasceu para viver bem-humorado, folgazão e espirituoso a valorizar os prazeres da vida, e gozá-los. O uso ilimitado do prazer desperta inveja, pois brinca sem olhar para o relógio em obscuras cavernas por onde se mete na busca de sensações nunca antes desfrutadas. Os desprovidos de criatividade e talento julgam o bon-vivant como um mero parasita que tira proveito de situações ou circunstâncias de modo pouco escrupuloso, podendo evoluir para explorador.
 
Repare que a mulher não faz jus ao título de bon-vivant. O machismo vigente apenas circunscreve ao homem o gozo desse deleite. Posto que ele se entrega aos prazeres mundanos e se dá o direito de viver como bem entender, com rara desenvoltura, pouco se importando com o que vão pensar. Um trânsito livre e solto que obrigaria a mulher pensar duas vezes se, leve e fagueira, desse vazão aos seus impulsos preferidos. A imagem pesa como uma cruz.
 
O bon-vivant não quer saber de ter filhos, procura criar e fortalecer nichos, na espreita de mulheres que se preparam para arpoá-lo. Seu intelecto o torna atraente para mocinhas sonhadoras, que alimentam a ilusão de dar um fim a esse homem das cavernas que estabelece reservas, demarca terrenos e não se entrega com facilidade.
 
Cultiva uma grande admiração por Sartre. Uma relação a dois, em termos de liberdade e transparência, inspira-se na distinção entre verdade necessária e verdade contingente. Segundo ele, sua relação com Simone de Beauvoir seria necessária, ao passo que os romances com outras mulheres seriam contingentes. O pacto relacional incluía lealdade absoluta de um para com o outro: contariam tudo o que lhes acontecesse, inclusive os casos contingentes. Esta modalidade de relacionamento na Europa dos anos 20, no século passado, foi motivo de escândalo pela audácia, pois Simone e Sartre arrombaram as portas da privacidade, se constituindo num exemplo para intelectuais das décadas seguintes.
 
Com a evolução da mulher, o bon-vivant teve que acompanhar a marcha dos tempos, senão perderia a sagacidade que lhe é peculiar. Passou a se utilizar do recurso de encher o bucho de cada mulher jovem com quem se casa para se assegurar de que ela não o trairá. Envolvida com a maternidade, habitualmente, o coração amolece.
 
Procura se mostrar, agora, um sujeito sério e cônscio de suas responsabilidades, o escárnio de fracassados ao persegui-lo pela alcunha de “comedor de gente”, pesa na balança. Contudo, o efeito pensão em cascata não o preocupa, enquanto gozar de boa situação financeira, jura não manchar seu nobre caráter; esvaziada a burra, perdulário já foi e a má fama fica por conta do bafo comprido.
 
A figura do bon-vivant como lorde ou playboy está em extinção, mas não como artista, no sentido mais ambíguo que a arte nos enleva. Amarra o burro à vontade de mulheres que perfazem a metade de sua idade para rejuvenescer, renovar e renascê-lo, criando seus netos, ou melhor, filhos, aos quais empresta menor rigor e maior compreensão. Enquanto elas mandam e adquirem experiência bancadas por eles.
 
Concebe suas contemporâneas como neuróticas, amargas, necessitando parecer modernas permanecendo tão antigas ainda, complicadas para construir um futuro promissor. Um corpo durinho e bem-acabado, o mínimo que se pede, exceção honrosa ao dele. Sobretudo na plenitude material em que se encontra, a maturidade aflora. Uma maldade se o brilho de sua inteligência não puder ser compartilhado, o mundo perderia!
 
Quando o bon-vivant abandona o amadorismo de filosofar sobre relacionamento com pitadas de sexo, maquiaveliza-se e perde a graça de um garoto que não cresceu, de um menino que aprecia ser bem cuidado e querido. E se transforma numa raposa atrás de suas galinhas sem se dar conta que não é mais o galo a cantar em seu terreiro.
 
 
 
 
Antonio Carlos Gaio
 
 

Crédito:Antonio Gaio

Autor:Antonio Gaio

Fonte:Universo da Mulher