Rio de Janeiro, 16 de Julho de 2019

Escravos do Mito

O homem veio sendo forjado ao longo dos séculos a partir de estereótipos que só refletem a falta de conhecimento real sobre como lida com as emoções. Desencadearam uma torrente de preconceitos baseados no julgamento de seus hábitos que implicaram em generalizações. Falsas ou verdadeiras?
 
Dois mitos do cinema americano, John Ford e John Wayne, em simbiose mítica, criaram a figura do herói americano por excelência nos filmes de western. Precursores de outra parceria, De Niro e Scorsese . O representante máximo do desbravador durão, corajoso, bom de briga, materializado no boxe, luta livre e no vale-tudo de esportes cuja marca do destino é o polegar pra baixo do imperador romano no Coliseu, em pleno chilique de lançar os cristãos na bocarra dos leões.
 
Os títulos dos filmes por si só já eram significativos, “No Tempo das Diligências”, “O Delator”, “As Vinhas da Ira”, “Paixão dos Fortes”, “Sangue de Heróis”, “Rastros de Ódio”, “Depois do Vendaval” e, o melhor de todos os tempos, “O Homem que matou o Facínora”.
 
O ícone do individualismo. Encarnam o solitário dos caubóis para serem examinados pelas mulheres, de longe, um charme! Representam o mal humorado, que atrai a incauta a se iludir na conversão à causa da felicidade. Interpretam o amargurado, que atrai a semelhante para partirem o bolo de casamento. Finalmente, o vingativo, que trama as maiores armações para derrubar quem lhe rejeitou ou tentou amoldá-lo a seu jeito - sai de perto desse!  
 
Gostam de incutir na mulher, por trás da carranca, um senso de lealdade, dever e respeito. Bons costumes e tradição mascaram interesse e comprometimento, superando qualquer pormenor adverso na sua personalidade - o apreço ao conservadorismo. No Velho Oeste, ela era tratada como um ser frágil com obrigações estritamente domésticas cabendo a ele responder ao ambiente hostil e árido. Mudou o sexo frágil e congelou a imagem de sujeito valente e decidido, criada para compensar a falta de talento.   
 
Em amar as mulheres pelas quais se declara, jura e se ajoelha perante a Deus no altar.
 
Sem jamais querer demonstrar.
 
Perante a família, que examina a sua autenticidade. Perante a você, que acredita, por pensar que ele sente igual. O que constitui o maior foco de irritação e desequilíbrio nervoso da mulher diante de um gênero de sentimento, catalogado para fins científicos como sendo a pasmaceira. 
 
A estratégia consiste em criar um tipo e mentir no seu real, pois todos compram a sua mentira, já que a verdade se demora a descobrir. E para que encarnar a verdade, se está se dando bem? Se todos o admiram. Quando jura juntar corpos somente com envolvimento, demonstra uma sensibilidade à flor da pele e maneja uma flexibilidade de entortar a espinha.
 
O que mais desejamos, enquanto amamos, é ser admirado, pouco importando se nos tornamos escravos do mito. É um presente de Deus, basta saboreá-lo. E se tornar um presente de grego? Um autêntico cavalo de Tróia, que se intromete no seu percurso e muda o rumo nas suas barbas, sem que seja capaz de interpor um mísero gesto para impedir que a ilusão converta uma paixão vagabunda num bolo de noiva.
 
Bastou ser excluído da lista dos melhores restaurantes franceses na classificação do Gault Millau, para o famoso chef de cuisine francês Bernard Loiseau se suicidar com um fuzil de caça. Um tiro de misericórdia num sultão da culinária que não aceitou ser rebaixado a eunuco.

Crédito:Antonio Gaio

Autor:Antonio Gaio

Fonte:Universo da Mulher