Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 2019

Briga de cachorro grande

Não existe nada na face da Terra que una os homens mais estreitamente que não o interesse, desde o sagrado lucro passando a limpo ganhos em golpes inconfessáveis, até chegar na amizade inseparável, que, por sua vez, retira o caráter mafioso da afirmação e procura estender às leis gerais que regem os relacionamentos humanos e afetivos.
 
 
 
A se prosseguir nessa linha, acreditam piamente que atrás de cada malefício infligido à mulher existe uma razão forte, de indispensável serventia, de cujo desfrute se delicia, pouco se importando se valorizam ou desvalorizam o caráter humano quando nascem ou morrem, cinicamente baseados na acachapante tese de que se começar a mentir involuntariamente, corre-se o risco de, no final do túnel, a verdade aparecer cristalina. O mal acreditando no bem, o contra-senso do maniqueísmo.  
 
 
 
Os homens nunca estiveram tão confusos no que diz respeito ao desafio de construir o seu futuro, afinal, a partir do instante em que a cabecinha se livra do útero e espia o mundo com os olhos que essa terra há de comer, a representação do papel que deveriam desempenhar sempre foi precisa. Isso mudou e os corroem por dentro, torturados pela dúvida. E vamos e venhamos, não se pode dar um passo sem um mínimo de convicção, pois mesmo que você se declare descrente e desconfiado de tudo e de todos, fica obrigado a elaborar uma teoria conspiratória para justificar que não acredita, o que não é verdade, apenas não conseguiu se comprometer ou assumir alguma coisa que valha a pena acreditar. Aceitar o que demasiadamente simples implica no rótulo de fanático, confundem simplicidade com simplório.
 
 
 
Esse é o cerne da questão da crise de fé, esperança ou ideologia, extensivo ao homem assolado pelo ceticismo em construir uma relação, dissociado de papéis que custa a se desapegar, afinal de contas, privilégios, ascendência e a última palavra se encontram embutidos.
 
 
 
Numa posição de arrogância em se julgar superior a fatores terrenos que pululam no quintal da vizinha, se surpreendem e detestam serem flagrados pelas mulheres, amando, apaixonados, antes que se apercebam e acusem, posto que a iniciativa é um atributo da qual não querem abrir mão.
De preferência, permanecerem imutáveis, aconchegados em suas regalias antes que escapem por entre os dedos; sê-lo, sem confessar que é, através de inúmeras facetas que disfarçam a perfeição cultivada de continuar a ser o que sempre foi sem despertar a mínima suspeita. Partem do pressuposto de que quem dá as cartas neste mundo é gente pedante, gente estúpida, gente hipócrita. Em política, não há perdão, esquece-se, apenas por conveniência. É por isso que Deus acometeu o mundo de dor na coluna, hérnia de disco, bico-de-papagaio, eles não se dobram nem se torcem ou rodopiam. É por isso que escolheu os japoneses, os mestres na arte de reclinar, para quebrar com a nossa espinha dorsal na massagem.
 
 
 
No alvorecer do século XXI o homem se acomoda a essa condição mediana de vida humana em que você não se sente feliz nem infeliz, diante de poucas e boas que teme escutar, mas prefere ficar com o pé atrás e não abrir a mão, repleta de meias verdades, o mão-de-vaca mesquinho e chegado à arte do embuste. Esnobando a insatisfação que nos martiriza e obriga a sair da toca, pois não existe inóspito na frieza capaz de nos manter aferrados à hibernação.
 
 
 
Uma nau insensata que não quer saber de nada, ignora a tempestade que o pôs no rumo do naufrágio, se até os ratos pressentem e fogem para sobreviver quando o navio vai a pique.
Semeiam o campo com minas para explodirem a qualquer passo falso dado em querer sair desse labirinto, circunscrevendo-nos, a todos, e restringindo o amor. Sabotando, melhor dizendo.
 
 
 
Na calada da noite, eles armam, planejam estratégias e se vingam de mulheres que não beijam na boca de homem com resto de comida entre os dentes, farejam quando é bacalhau, couve ou feijão, alho e ovo nem pensar. Exigem que andem armados de fio dental.
Típica briga de cachorro grande!
 
 
 
 
Antonio Carlos Gaio
 
 

Crédito:Antonio Carlos Gaio

Autor:Antonio Carlos Gaio

Fonte:Esses inesqueciveis homens