Rio de Janeiro, 26 de Julho de 2017

O Vagabundo de praia

A partir deste ano, o Universo da Mulher começa a publicar a série "Esses inesquecíveis homens", de periodicidade indefinida, cujo foco é analisar a resposta do homem quanto à evolução sofrida pela mulher, numa reversão completa de expectativas na construção de relacionamentos.
Uma seqüência natural iniciada em alguns contos do livro Ilusão de Ótica, de Antonio Carlos Gaio, imageticamente retratado em sua capa, continuado em O Fim do Donjuanismo - a ser publicado
 
 
Todo santo dia o vagabundo de praia bate o ponto na água do mar ao se benzer, agradecendo a dádiva de Deus por permanecer vivo mais um alvorecer. De raquetes de frescobol na mão a procurar parceiro. Ele nem se abala em constatar se faz sentido o que você diz, o intelectual coleciona fracassos ao pretender-se coerente. Seu ganha-pão? Só Sherlock Holmes pode elucidar tal enigma.
 
 
 
De barba densa a caminho do perfil de um guru, na verdade é mal tratada a espelhar um sonâmbulo infectado pela preguiça de Macunaíma, cuja sunga branca puída perdeu a elasticidade que realçava a intumescência priáprica comum aos jovens e passa a exibir uma maçaroca que se confunde com o escroto do homem ou com o homem escroto, tanto faz.
 
 
 
Preferível assim, de barba escanhoada, a falta de vigor ficaria mais evidente e seria confundido com preso no campo de concentração. Não que ele seja esquelético, mas é que a prisão reflete a falta de objetivos, a visão caolha e o horizonte nublado. De quem prende e se deixa encarcerar, já que a sociedade não inventou coisa melhor que a penitenciária nem a prisão entre quatro de paredes de Sartre.
 
 
 
Nem formoso era o vagabundo de praia. Só que como o adorável vira-lata, todo mundo tem uma vocação para adotar vira-latas, em virtude da alma de vagabundo que grassa no nosso coração piegas e alma sentimentalóide, inspirados no dramalhão mexicano que protagonizamos desde o primeiro canto do galo da madrugada.
 
 
 
Como o vagabundo não conseguiu decifrar seu mistério, perdeu o escrúpulo que lhe faltava e tornou visível o abutre que o habitava, sua versão do médico e o monstro. Ao se alimentar de restos de relacionamento, de mulheres exauridas por afetos que não se materializam ou por fantasias que se desgastam na maresia de oceanos que desenham cartões-postais de amor.
 
 
 
Essas mulheres frustradas e carentes não o desejam, mas o vagabundo se posta como seu solícito servo desde o parafuso que não se encaixa, como encontrar a rua Pandiá Calógeras, até acumular as funções de ouvidor-geral e consultório sentimental.
 
 
 
Ele as serve apenas como entreposto de reabastecimento. Se aproxima com um papo de quem não quer nada, inspirando confiança, bondade e companheirismo. Jamais irá pressioná-la para que se resolva sobre se está disposta a que penetre em sua intimidade. O tempo passa, ela acabará cedendo para não perder o amigo e voltar a ficar só. Ao fazer as vezes de Jeremias, o Bom, transforma o amor em amizade, com pitadas de sexo, de maneira a não se envolver. A duração do “vamos sair juntos” é curta; apagam a lousa como se nada tivesse acontecido e se tornam apenas bons amigos.
 
 
 
Sejamos civilizados, atração sexual não é como uma história que precisa ter início, meio e fim. A estima recíproca pode gerar um ambiente de camaradagem. Se desvinculado do aviltante sentimento de posse e ciúme. Quem acredita nisso? Elas, as mulheres do vagabundo, por uma questão de gratidão. Porque ele estava lá quando precisaram de um ombro amigo.
 
 
 
Louvado seja o vagabundo que recebe o comunicado de sua dispensa sem qualquer gesto de desagrado! O fato de elas não o quererem mais não lhe causa nenhum embaraço, visto que já obteve tudo o que desejava: o banquete. Ao contrário, respira de alívio porque é mais uma que não precisa se envolver.
 
 
 
Julga-se com um senso de imaginação que não conjuga com fidelidade, portanto, é irrelevante ela não considerá-lo como um igual, a vagina é o seu limite e o escalpelo a ser conquistado a glória, para o vagabundo que já perdeu todas as esperanças no amor. De sequer construir um castelo, muito menos um castelo de areia a quatro mãos com sua filhinha. Esse castelo, ele empurra para a desorientada de plantão, explorando a maternidade latente tanto quanto o casanova tira proveito de corações piegas, o verdadeiro orgasmo subtraído.
 
 
 
E ai de quem recebeu uma herança malandra, botou as mãos numa dívida impagável ou fez jus a reforço de caixa culposo de ex-marido. Ele morde que nem um tubarão ou uma hiena que não rejeita vísceras, são ratos que roem e corroem, agora que descobrimos possuir a mesma cadeia de genomas.
 
 
 
O vagabundo é o próprio ator que faz figuração e compõe o cenário numa roda de mulheres em meio à celebração de uma festa, para que elas não se sintam como mercadorias numa vitrine. Vive o duplo papel de se fingir de homem e funcionar como isca, a fim de atrair os verdadeiros interessados no sexo oposto.
 
 
 
Atribuir fracasso ao vagabundo de praia é temerário, pois a decadência se espraia de tal forma que não mais reparamos sua onipresença incontestável no direito de ir-e-vir, nos objetos de consumo, nas preferências sexuais, no progressivo acasalamento com uma ética coagida a suprir necessidades com as quais Deus não nos capacitou. A qualquer preço.
 
 

Resta sermos felizes nesse casamento em ambiente que perdeu o respeito. Segundo o “Estatuto da Gafieira”, Billy Blanco recomenda “moço, olha o vexame, o ambiente exige respeito, dance a noite inteira, mas dance direito”.    
 
 
 
 
 

Antonio Carlos Gaio

           

       

Crédito:Antonio Carlos Gaio

Autor:Antonio Carlos Gaio

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