Rio de Janeiro, 04 de Abril de 2020

Design no supermercado

Com a produção em série de móveis de grife, decoração deixou de ser privilégio de ricos

Morar em uma casa transada deixou de ser privilégio de poucos. Com a proliferação de lojas de decoração e a produção em série de móveis assinados por designers de renome, ficou mais fácil deixar salas, quartos e até banheiros com jeito de ambiente de Casa Cor. Ninguém mais compra uma cadeira só porque precisa de algum lugar para sentar nem uma mesa unicamente para servir refeições. Agora o que vale é o design arrojado, o material moderninho, a cor divertida. Qualquer coisa que ajude a dar mais graça à casa. O exemplo mais bem acabado desse boom da decoração é a rede Tok & Stok. Quando abriu as portas em 1978, a loja tinha uma coleção de 1.500 itens, a maioria móveis. Hoje é um verdadeiro supermercado de design, cheio de coisinhas para casa sem muita função, mas lindas de morrer. São 8.000 peças no catálogo. Do porta-escova de dente bacana a sofisticadas cadeiras como a Wassily, do designer Marcel Breuer, ou a chaise-longue Corbu, assinada pelo arquiteto suíço Le Corbusier (1887-1965). Outra prova de que morar em casa decorada conforme as regras do design virou uma obsessão entre gente de todas os bolsos e idades é o crescente interesse por mostras de decoração. A primeira Casa Cor carioca, em 1991, recebeu 16 mil visitantes. Na edição do ano passado, 45 mil pessoas estiveram na exposição. Comerciantes atentos não deixaram esse interesse passar em branco. Nos últimos cinco anos, o Rio ganhou dezenas de lojas especializadas em decoração. O empreendimento mais vultoso foi erguido em setembro de 2000: o Rio Design Barra, filhote do Rio Design Center do Leblon, que foi o primeiro shopping especializado em decoração do Brasil. Apesar de novo, o centro

de compras na Barra é um caso de sucesso incomum: 52 das 55 lojas do complexo estão ocupadas, e o movimento não pára de crescer. Em janeiro de 2001, 21 mil carros passaram pelo estacionamento do shopping com consumidores ávidos por novidades para a casa. Este ano, este número pulou para 35 mil. O Casashopping, ali perto, já está na terceira expansão. A primeira, há três anos, duplicou o número de lojas. Até o fim de 2003, serão mais 50, elevando o total para 145. A Stilo Ásia, que vende móveis e acessórios importados da Tailândia, Índia e Indonésia, aproveitou a ampliação do Casashopping para abrir sua segunda loja na cidade (a primeira fica em Jacarepaguá). Em novembro, inaugurou uma filial em Angra dos Reis e, em fevereiro, repetiu a dose em Búzios. A Area Objetos, outra que apostou no sucesso dos móveis com toques orientais, fez sua primeira importação de artigos de Bali em 1999: seis cestos de palha com tela. Hoje traz 600 a cada mês, e a demanda já é maior do que a oferta. ""Tem até fila de espera"", diz Ana Maria Andrade Pinto, uma das sócias da Area. ""O brasileiro descobriu o design e agora todo mundo quer ter uma casa estilosa"", diz a arquiteta carioca Lia Siqueira, que decorou a casa de Malu Mader, Cláudia Abreu e Débora Bloch.

O boom do design está deixando a decoração cada vez mais parecida com a moda. Da mesma forma que os consumidores de roupas se sentem impelidos a renovar o guarda-roupa para acompanhar as tendências ditadas pelos estilistas, arquitetos, designers e decoradores estabelecem qual o material, a cor e a forma da vez dentro de casa. Eles funcionam como uma espécie de guia para os clientes e acabam decidindo o que está ou não na moda quando o assunto é montar um lugar bonito para morar. Resta a nós, mortais, tirar o dinheiro do bolso para entrar na onda. Seguindo esse raciocínio - e considerando que móveis são muito mais caros que roupas - quem embarcar na onda do design estará fadado à ruína financeira.

Não é bem assim. Em primeiro lugar, o design está ficando cada vez mais barato. Há uma série de profissionais do ramo empenhados em sua popularização, como Philippe Starck na França e o paulista Fernando Jaeger no Brasil. Em segundo, é preciso saber escolher em que peças vale a pena investir no diferente e quando o melhor é ser careta. Manda o bom senso que, em se tratando de móveis pesados, como grandes armários, camas ou mesas de jantar, dê-se preferência para designs tradicionais e cores sóbrias. Do contrário, corre-se o risco de gastar uma fortuna num sofá que todo mundo vai achar cafona e ultrapassado no ano que vem, igualzinho ao que acontece com roupas. A ousadia deve ficar nos detalhes, como uma luminária, um cinzeiro, uma almodafa. A arquiteta Lia Siqueira conta que, há 21 anos investiu alto no sofá italiano Cini Boeri, da Forma. Três anos atrás, quando quis comprar outro sofá, procurou em vários endereços e acabou comprando um idêntico ao primeiro. Moral da história: há peças pelas quais se paga caro, mas que são uma excelente aposta pois nunca sairão de moda. ""Como na moda, algumas peças são básicas"", diz Jaeger.

A proximidade de moda e decoração nos dias de hoje é tão grande que grifes de roupas como Ralph Lauren, Elle et Lui, Daslu e, mais recentemente, as lojas Armani em Milão e Nova York também estão produzindo peças de decoração e jogos de cama, mesa e banho. Inaugurada há 15 dias em Ipanema, a Contemporâneo é um exemplo perfeito do casamento ente moda e decoração. Em suas vitrines, objetos de designers brasileiros são expostos ao lado de roupas de grifes badaladas como Alexandre Herchcovitch e Reinaldo Lourenço. Apesar de já ter lançado sua primeira loja voltada para casa em 1992, só de um ano para cá a joalheria H.Stern começou a investir para valer em produtos de design contemporâneo. ""Antes a loja era mais para listas de casamento. Agora é uma questão conceitual, de estilo de vida. As pessoas estão valorizando o interior, as casas de gente jovem estão sempre mudando", diz Roberto Stern, presidente da grife, que quando falou à Domingo estava na fronteira da Suíça com a Alemanha, voltando da fábrica-museu de cadeiras Vitra, em busca de inspiração para sua linha de objetos para o lar.

O fenômeno da democratização do design é relativamente novo no Brasil, mas na Europa vem de longa data. Um dos precursores foi justamente o francês Philippe Starck, mais importante nome contemporâneo na arte de desenhar objetos descolados para a casa. Starck começou a carreira em 1968, fazendo móveis infláveis. Depois, nos anos 70, trabalhou com Pierre Cardin, decorou a famosa boate parisiense Les Bains-Douches e se consagrou com o convite do presidente François Mitterand para reformar a ala residencial do Palácio Elysée, em 1982. Ele é um dos mais ferrenhos defensores da popularização do design em todo o mundo. E dá o exemplo barateando seus próprios móveis. Uma cadeira que no início de sua bem-sucedida carreira custava US$ 1.000 será relançada em junho por apenas US$ 9. Quando visitou o Rio em fevereiro para conhecer endereços onde possivelmente erguerá um hotel, Starck disse que só acredita no design quando atinge um número expressivo de pessoas. Para ele, produtos caríssimos vendidos em butiques esnobes fazem parte do passado. Apesar de muito badalado, há peças de Starck a preços acessíveis no Brasil. Na Tok & Stok, por exemplo, há um banquinho que imita três tetas de vaca e serve também como baú para guardar brinquedos, roupa suja ou o que mais der na telha. Faz o maior sucesso com a criançada e custa R$ 224. A Way Design Contemporânea do Rio Design Barra vende uma fruteira cromada com pés de plástico laranja por R$ 336. O espremedor de frutas Juicy Salif, com longas pernas de alumínio inspiradas em um polvo, sai por menos de R$ 200 e é o carro-chefe da casa. ""Nunca tem na loja. Acaba muito rápido e sempre preciso fazer novos pedidos"", diz Alexandre Pazzine, proprietário da Way Design.

Pequenos objetos como os desenhados por Starck, que até pouco tempo atrás eram comprados em supermercado e não tinham charme algum, são os itens mais apreciados pelos novos aficionados por design. Em primeiro lugar, porque são bem mais baratos que móveis de verdade. E também porque podem ser comprados num impulso, sem que seja necessário criar espaço para acomodá-los dentro de casa.

É de olho neste novo consumidor que lojas como a Tok & Stok investem cada vez mais em apetrechos. Em São Paulo, na megaloja de Pinheiros com 5.500 metros quadrados, o primeiro piso inteiro é reservado a irresistíveis enfeites domésticos. Dos 550 mil itens que a Tok & Stok vende mensalmente em todo o país, os acessórios para casa já representam 30%. A peça mais vendida, por incrível que pareça, é o cabide de plástico, que custa a bagatela de R$ 0,90 e vem em diversas cores. Até dentro dos guarda-roupas as pessoas estão colocando design. Por mês são vendidas 10 mil unidades em todas as 23 lojas da grife no país. Para orientar os clientes de primeira viagem a decorar a casa, há três anos, a Tok & Stok editou em parceria com a editora Senac, o livro Lugar Comum - Auto-ajuda de decoração e estilo, escrito pela historiadora Vera Fraga Leslie. ""Nos últimos dez anos, o conceito de decoração evoluiu consideravelmente. Quando abrimos em 1978, só vendíamos louça branca. Hoje em dia, há uma variedade sem fim de cores e estampas diferentes"", diz Marco Costa, gerente de comunicação da marca.

No Brasil, o designer que batalha mais a fundo a popularização do design é mesmo Fernando Jaeger. Quando começou sua carreira, no início dos anos 80, já pensava em socializar o design. Na época, era uma voz solitária. Mas Jaeger, que começou desenhando móveis para Tok & Stok, persistiu e hoje comemora a produção cada vez maior do design brasileiro. ""No começo as pessoas desconfiavam porque o preço era mais baixo. Mas mostrei que dava para fazer produtos de qualidade, com desenho criativo e baixo custo"", diz Jaeger, que está em Milão, onde participa até amanhã da mostra Brasil faz design com três objetos selecionados. Sua luminária Bienal, feita com fios de PVC coloridos presos a um globo de polietileno, foi eleita uma das dez melhores da mostra. Já a cadeira Olívia, confeccionada em eucalipto certificado (uma novidade em madeira de reflorestamento), ganhou o prêmio especial na categoria ""desenvolvimento sustentável"". Os brasileiros poderão conferir esses trabalhos a partir de 4 junho, quando a mostra vem para o Museu Brasileiro da Escultura (Mube), em São Paulo. No Rio, a exposição ainda não tem data marcada para chegar, mas as peças são vendidas na loja de Jaeger no Rio Design Barra, inaugurada há menos de um ano.

Outro nome poderoso do design verde-e-amarelo é o carioca Guto Índio da Costa, especialista em desenho de qualidade com preços mais pé no chão. Ele também participa da mostra em Milão com o famoso ventilador Spirit, de teto e com apenas duas pás. Neste caso a popularização foi tanta, que o ventilador pode ser encontrado nas filiais da popular rede Casa & Vídeo.

Contratar um decorador para assessorar na tarefa de fazer uma casa bacana não é mais um luxo para pouquíssimos. É evidente que profissionais mais conceituados e experientes ainda custam muito caro e, sem dúvida, dão resultados maravilhosos. Mas quem estiver com o bolso meio vazio e cheio de vontade de fazer uma casinha gostosa pode optar por um jovem recém-formado. Um projeto que não envolva grandes obras sai por aproximadamente R$ 2.000. No mesmo ritmo que cresce o número de lojas de decoração e arquitetura, ampliam-se as opções de cursos para os profissionais da área. Seguindo os passos da pioneira UFRJ, que oferece o curso Composição de Interiores desde a década de 70, a Estácio de Sá resolveu investir nesse campo e, há quatro anos, abriu o Curso de Decoração e Design de Interiores, reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) em 2000. A Cândido Mendes fez a mesma coisa e formou sua primeira turma de designers de interiores há dois anos. ""Antes o decorador era apenas uma pessoa de bom gosto ou um arquiteto que se desdobrava em dois para projetar a estrutura da casa e cuidar de seu interior. Agora há gente que estuda especificamente para fazer isso bem"", diz a coordenadora do curso da Estácio de Sá, Kátia Ibrahim. Com essa enxurrada de novos profissionais no mercado pode ser que daqui há alguns anos contratar um decorador seja tarefa tão corriqueira quanto ter personal trainer na academia para cuidar do corpo .

Crédito:Anna Beth

Autor:Redação

Fonte:Domingo - Jornal do Brasil