Rio de Janeiro, 04 de Abril de 2020

Fábrica na selva

Fábrica na selva

A designer mineira Etel Carmona é uma cidadã do mundo. Os móveis de alto padrão e as jóias em madeira que ela projeta e constrói já ganharam espaços em vários países. Sua loja, a Etel Interiores, está instalada em uma mansão da seletíssima região dos Jardins, em São Paulo. Vários de seus clientes estão na Europa.
Em abril, um escritório de representação de suas obras será inaugurado em Nova York.


Em 15 anos de atividade, Etel fincou seu nome no fechado circuito internacional do design. Uma carreira de sucesso, como tantas outras do segmento. Não fosse por uma diferença: uma vez por mês, religiosamente, a designer deixa a selva de pedra em direção à selva de verdade. Seu destino é Xapuri, no Acre, a cidadezinha de 15 mil habitantes encravada na Amazônia que ganhou um lugar no mapa-múndi depois do assassinato do seringueiro ecologista Chico Mendes, na década de 80. “Leva-se um dia inteiro para chegar lá”, diz, habituada à rotina.

Etel passa, no mínimo, uma semana por mês no lugar, dormindo em rede, tomando banho em igarapés, sendo consumida por mosquitos e... administrando seu negócio. Há pouco mais de um ano, ela e outros três sócios montaram uma fábrica de móveis na cidade, a Aver Amazônia. Toda a produção, realizada por jovens da cidade com madeiras extraídas das reservas locais, é embarcada em caminhões e chega, dez dias depois, a São Paulo, de onde é distribuída para o mundo. Aparentemente sem lógica comercial (por que alguém resolveria fabricar tão longe do principal mercado?), o esquema passa a fazer todo o sentido quando se conhece a história de Etel.

 

Nascida “há mais de 50 anos” no berço de fazendeiros em Paraisópolis, Minas Gerais, Etel chegou a São Paulo aos 17 para estudar. Pensou em fazer veterinária, mas abandonou a idéia antes mesmo de começar o curso. Durante sete anos, foi secretária-executiva de grandes multinacionais. Casou-se e dedicou-se exclusivamente ao papel de mãe durante anos, até que o destino colocou o marceneiro Moacir Tozzo em seu caminho, há 15 anos. “Foi uma coisa divina”, relembra.

Mestre – Os dois se conheceram quando Etel resolveu apoiar um grupo de garotos que havia trabalhado na construção da sede de seu sítio em Louveira, região de Campinas. Até então, a única relação da designer com os móveis era pessoal. “Eu sempre desenhei e construí meus móveis, nunca entrei numa loja para comprar sequer uma cadeira.” A mão-de-obra ociosa dos rapazes acabou levando-a a buscar um mestre que lhes ensinasse o ofício. Recomendado por um tapeceiro da região, Tozzo, hoje com 63 anos, trabalhava havia 30 numa mesma empresa moveleira. A princípio, ambos combinaram de passar os sábados com os jovens. “Oito meses depois, ele largou o emprego e veio trabalhar comigo”, diz. A produção era modesta. A clientela, formada basicamente por amigos.

Perfil

  Max G Pinto
 Ecologia: Manejo da madeira respeita a natureza da floresta

A parceria deu certo. Hoje, Tozzo comanda uma equipe de 70 funcionários num galpão de dois mil metros quadrados em Valinhos (SP). “Isso aqui não é uma fábrica de móveis, é uma marcenaria”, diz o mestre. Todo o trabalho de Etel é voltado para o resgate da milenar arte do manuseio da madeira. Tudo é feito à moda antiga – em contraste às modernas linhas dos móveis. Nenhuma peça produzida leva pregos, por exemplo – eles são substituídos por encaixes milimétricos. A precisão do acabamento é impressionante. Não há estoques. Cada unidade é produzida a partir do pedido do cliente e tem prazo de entrega de 60 dias. Os preços são condizentes com a qualidade e a exclusividade dos traços da designer. Uma mesa chega a custar R$ 10 mil.

Oficina-escola – A mão-de-obra é formada em casa. Quase todos os funcionários, recrutados entre as classes pobres da região, foram formados pelo mestre Tozzo. Etel prefere chamar a fábrica de oficina-escola e detesta ações filantrópicas. Ela é adepta da clássica teoria do “não dê um peixe, ensine a pescar”.

Há pouco mais de um ano, surgiu a oportunidade de “ensinar a pescar” em Xapuri. Preocupada com a origem da matéria-prima que consumia, Etel passou a adquirir apenas madeira certificada pelo Conselho de Manejo Florestal, uma entidade internacional que distribui uma espécie de “selo verde” aos membros da cadeia moveleira. Cerca de 30% mais cara que
a média do mercado, a madeira certificada é retirada da natureza respeitando as regras básicas do chamado manejo natural da floresta.
A preocupação ecológica da designer acabou chamando a atenção do governo do Acre, disposto a criar uma área de desenvolvimento sustentável na paupérrima Xapuri. Desde 1998, existe na região um projeto para conter a derrubada indiscriminada de árvores. O segundo passo foi montar uma estrutura na cidade para criar um pólo industrial. “Desde que a convidamos para o projeto, ela tem se envolvido muito”,
diz Ronald Polanco, deputado estadual pelo PT.

Em galpões cedidos pelo governo, Etel montou sua segunda fábrica. Dezessete garotos passaram oito meses aprendendo com o mestre Tozzo, em São Paulo, e hoje tocam a produção – iniciada, para valer, no fim do ano passado. Cada um recebe três salários mínimos por mês e, em breve, vai passar a ganhar sobre a produtividade. É um dinheirão para a região. Etel encara a aventura amazônica como um negócio, realmente. “Eu cheguei logo dizendo que estava ali para trabalhar e ganhar dinheiro com eles. E não ganhar o dinheiro deles.” Mais do que uma fábrica perdida numa região remota, Etel está construindo a certeza de que é possível faturar alto sem atropelar a ética, os direitos humanos e a natureza.

Crédito:Anna Beth

Autor:Mario Nogueira

Fonte:Charels Magno Imprensa Especializada