Rio de Janeiro, 19 de Agosto de 2017

Consumir com educação - Por Silvana Martani

Consumir com educação - Por Silvana Martani
Educar é uma das tarefas mais difíceis que existem.
 
Quando os filhos nascem, sem o manual de instrução, nos sentimos como se o chão embaixo dos nossos pés sumisse. Com o tempo, essa sensação melhora mas, de alguma maneira, sabemos que o chão que pisamos não é muito firme e que, para termos tranqüilidade de caminhar sobre ele, vai demorar algum tempo.
 
Entendemos que educar é muito difícil porque não é tarefa somente de profissionais diplomados, é de gente que não cursou nenhuma faculdade para ser pai ou mãe e que pretende desempenhar esse papel com os recursos emocionais e intelectuais que dispõe. Logo, podemos contar com a educação que recebemos dos nossos pais, livros, escola e com o nosso bom senso para educar nossos filhos.
 
Nos últimos trinta anos a oferta de produtos e sua divulgação aumentaram muito e a forma como vivemos e como nos comportamos sofreu uma grande alteração. Alimentação, utilidades, roupas e outros tantos itens sofreram uma modificação de conceito e não só de oferta. Consumir ultrapassou a barreira da necessidade e se tornou um espelho do padrão social, intelectual e emocional do indivíduo.
 
Tanto para as crianças, como para os adultos, consumir deixou de ser uma conseqüência e sim um exercício de prazer que tem o tempo do próximo lançamento ou novidade.
 
As escolas e os pais vêm se preocupando cada vez mais com a questão de como orientar seus alunos e filhos a consumir com educação e consciência. Temas relacionados ao consumo sustentável são discutidos dentro de sala de aula com o objetivo de instaurar uma nova ordem social e econômica nas sociedades futuras.
 
Os pais também vêm modificando a forma como incentivam seus filhos a consumir. Essa mudança se deu primeiro por uma questão muito mais econômica que social. Nos últimos anos, a queda do poder aquisitivo reorganizou os hábitos de consumo da maioria das pessoas e as crianças acabaram sendo criadas com maiores restrições. Isso é uma realidade constatável nas classes B e C que perderam consideravelmente seu poder aquisitivo.
 
Cada classe social tem seus sonhos de consumo e a frustração é sentida da mesma maneira se acontecer por conta de um brinquedo de R$ 20,00 ou de um computador de R$ 2.000,00.
 
Criança detesta ser frustrada e sempre reage muito mal a qualquer contrariedade, principalmente, se a compra estiver aliada à gratificação, prêmio ou bônus por bom comportamento. A maioria dos pais costuma gratificar comportamentos corriqueiros e obrigatórios de seus filhos com mimos dos mais variados valores, impondo uma relação entre os deveres e as gratificações absurdas. Esse comportamento faz com que a criança absorva o conceito de prêmio ou gratificação de maneira inadequada. Se toda vez que faz uma gracinha diferente ou executa uma tarefa a criança for gratificada, mesmo que com uma bala e não com um “muito bem”, o incentivo moral perderá totalmente sua função sobre o bom comportamento e o objeto fará este papel.
 
A falta de limites é outro vilão do consumo desordenado. Pais que têm dificuldades de normalmente dizer NÃO a seus filhos e acabam satisfazendo as vontades dos pequenos muito mais para não ouvi-los esbravejar do que por convicção de que estão fazendo a coisa certa. Além disso, faz com que a criança tenha dificuldade em desenvolver sua auto-estima e apresente uma baixa tolerância à frustração que leva a sentir-se insuportavelmente insatisfeita quase que o tempo todo. Neste caso, o presentinho ou o mimo faz o papel de “calmante” apesar de durar pouco.
 
Estes são os principais motivos que levam o jovem, ou mesmo o adulto, ao consumo desordenado. Quem está feliz e satisfeito com sua vida emocional e se sente seguro consome com ponderação e escolhe o que consumir. Já, o indivíduo insatisfeito não se importa com o que consome, o que interessa é a sensação imediata de prazer, independente se isso vai lhe prestar.
 
 
 
 
*Silvana Martani é psicóloga da Clínica de Endocrinologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo - CRP06/16669

PERFIL:
Formação:
Instituto Unificado Paulista / Faculdade Objetivo 1978 - 1982.
Atuação:
Psicóloga da Clínica de endocrinologia do Hospital Real Beneficência Portuguesa; desde 1984.
Extra-curricular:
Palestras ministradas aos pacientes obesos, com distúrbios glandulares e diabetes, desde 1989.
Aulas Ministradas aos residentes da clínica de endocrinologia do Hospital Beneficiência Portuguesa.

 
 
 

Crédito:Eleonora Chagas

Autor:Silvana Martani

Fonte:Materia Primma