Rio de Janeiro, 22 de Janeiro de 2020

Emoções à flor da pele:como lidar com o diagnóstico de infertilidade?

Emoções à flor da pele:

como lidar com o diagnóstico de infertilidade?

 

 

Dificilmente, os casais quando se unem imaginam que possam ter dificuldades para gerar uma criança, porém, um diagnóstico de infertilidade pode abalar profundamente o lado emocional deste par, levantando uma série de questionamentos para tentar compreender o porquê não podem ter filhos, “como os outros casais”.

Neste cenário, muitas feridas individuais e conjugais podem se abrir, iniciando-se também a separação de algo perdido: a capacidade de engravidar naturalmente. “Todo esse processo gera dor e sofrimento, são necessários tempo e suporte emocional para elaborar estes sentimentos. Para muitos não é fácil aceitar o fato de não poder ter filhos naturalmente e, enquanto isso não puder ser ‘digerido’ e aceito, fica complicado buscar uma saída alternativa para o problema. Cada indivíduo tem um tempo diferente para aceitar e aprender a lidar com essa nova situação”, explica a psicóloga da Clínica GERA, Luciana Leis, especializada no atendimento a casais que enfrentam problemas de fertilidade.

Na entrevista a seguir, a psicóloga aborda como os casais vêm lidando com a questão da infertilidade, como encaram os tratamentos de reprodução assistida e como é possível superar a dor de não ter um filho natural e partir para a adoção de uma criança.

1)Geralmente, quando um casal busca a gravidez e esta não se dá de forma espontânea, eles cogitam, quase que imediatamente, os tratamentos de reprodução assistida: coito programado, inseminação artificial, FIV...  Percebemos que há uma procura incessante por fatores físicos causadores da infertilidade. E os fatores emocionais geralmente são deixados em segundo plano. Como você avalia esta situação?

Luciana Leis - Na prática clínica, percebemos que existem muitos fatores psicológicos que associados ou não a fatores físicos disfuncionais podem influenciar na resposta de gravidez. Dentre muitos, seguem relacionados os que se evidenciam com mais freqüência:

  • Ambigüidade frente à maternidade;
  • Ambigüidade frente à paternidade;
  • Dificuldade em assumir o papel de mãe;
  • Falta de espaço para a criança;
  • Rivalidade com terceiros;
  • Desencontro de desejo do casal quanto ao momento de ter um filho;
  • Relações disfuncionais.

2) Os casais que enfrentam problemas de infertilidade têm, muitas vezes, a percepção errônea de que tão logo iniciem o tratamento para infertilidade, conseguirão a almejada gravidez e, em muitos casos, de gêmeos. São comuns fotos e reportagens de casais de artistas famosos que se submeteram às técnicas de reprodução assistida felizes da vida com seu(s) bebê(s), sem, no entanto, revelarem a trajetória de angústias e sofrimentos anteriores a essa conquista. Você vivencia muito este tipo de situação?

Luciana Leis – Sim, por isto o trabalho psicoterápico é tão importante. Procuramos explicar a estes casais que os tratamentos de reprodução humana assistida aumentam a resposta de gravidez, porém, não são garantias de obtenção da mesma. As técnicas de fertilização trabalham “fazendo as vezes” de uma função que está inoperante no organismo do casal. Deste modo, por exemplo, se o problema está nas trompas que estão obstruídas, a técnica fará o papel das mesmas, permitindo o encontro do óvulo com o espermatozóide fora do corpo da mulher e colocando o embrião já formado no útero da mulher. Outro exemplo: se a dificuldade do casal está relacionada aos espermatozóides do marido que não conseguem fecundar o óvulo da companheira, a técnica fará a função destes, permitindo a penetração no óvulo para a obtenção do embrião. Assim, em cada caso, sucessivamente, as técnicas de reprodução assistida buscarão solucionar o problema de cada casal. Da mesma forma que um casal sem dificuldades para engravidar não tem certeza que obterá a gravidez naquele ciclo em que tiveram relações sexuais, os que se submetem aos tratamentos de reprodução assistida não têm garantias de sucesso por ciclo, embora se aumentem as chances de gravidez com o tratamento.

3)Na sua opinião, os casais que se submetem, pela primeira vez, aos tratamentos de reprodução humana assistida têm mais fantasias a respeito dos resultados?

Luciana Leis - Percebo que o nível de expectativa de sucesso em relação aos tratamentos de reprodução assistida é bem diferente num casal que inicia sua primeira tentativa em comparação a outros casais que já tentam engravidar há mais tempo. Por mais que os casais de primeira tentativa sejam informados sobre as chances de sucesso do tratamento, devido a fatores emocionais que operam por trás desse processo, há certa idealização do tratamento e a busca de uma solução mágica para seu problema. Desta maneira, quando o tratamento não dá certo, a dor é grande e o tamanho do “tombo” costuma ser de acordo com a altura da idealização, colocando o casal, na maior parte das vezes, frente à realidade do tratamento para as próximas tentativas. É desejável que o casal que enfrenta problemas de fertilidade compreenda que são tentativas e não garantias de gravidez o que os tratamentos oferecem. Levando-se em consideração esse fator, a dor pode ser menor se a tentativa de gravidez falhar e a esperança pode se renovar para que o casal possa se empenhar novamente na tarefa de conseguir engravidar.

4) A maioria das pessoas - tanto homens quanto mulheres - possui dentro de si o desejo de ter filhos, de poder continuar existindo através de um outro que o represente. Ao se depararem com um diagnóstico de infertilidade, homens e mulheres vivenciam esta experiência de maneiras distintas. Como a mulher vivencia este problema? 

Luciana Leis - A vivência de infertilidade é por demais frustrante para as mulheres. Na maioria das vezes, traz em seu bojo sentimentos de raiva (por exemplo, quando perguntam o porquê ela e o marido não têm filhos), inveja (quando uma amiga engravida assim que pára de tomar a pílula), sensação de fracasso (por tentar engravidar todo mês e se deparar com a vinda da menstruação)... Todos esses sentimentos, rechaçados pela sociedade e – quase sempre – por, nós mesmas, são experimentados e logo em seguida bloqueados. Não é permitido que as mulheres entrem em contato com eles, para não irem contra “o modelo ideal de menina e mulher”. Há necessidade de uma certa flexibilidade emocional e de permissão para que alguns sentimentos hostis possam ser reconhecidos e vivenciados, sem culpa, em meio às dificuldades para obtenção da gravidez. Nossos sentimentos e atitudes nem sempre são nobres e nem têm obrigação de ser. Sendo menos rígidas e mais tolerantes com nós mesmas, abrimos a possibilidade de vivenciar a totalidade de nossas emoções, boas ou más, tornando-nos, assim, mais humanas.

5) E como os homens lidam com esta questão?

Luciana Leis -  A notícia da infertilidade não costuma ser bem recebida nem por homens, nem por mulheres. Mas o sexo masculino parece ter mais dificuldades para aceitar o diagnóstico. A vivência emocional da infertilidade por um homem é extremamente angustiante, uma vez que ainda vivemos em uma cultura machista, onde sinal de “ser macho” é ser um “bom reprodutor”. Assim, a incapacidade de engravidar uma mulher pode vir associada mentalmente à falta de masculinidade ou virilidade. A associação popular entre capacidade de procriação e potência é um dos principais motivos de resistência à vasectomia em nossa cultura. Essa associação também é responsável pela relutância que alguns homens demonstram no momento de fazer o exame de espermograma pedido pelo médico. Além disso, percebe-se que o diagnóstico de infertilidade masculina acaba por interferir de forma significativa na vida sexual dos homens, podendo-se observar falta de libido, distúrbios ejaculatórios e impotência sexual.

6) Ter engravidado naturalmente uma vez, com facilidade, não é garantia de que o mesmo acontecerá uma segunda vez.  São comuns os casos de infertilidade secundária, quando um casal não consegue engravidar ou levar uma gravidez até o final, após já terem tido um filho. Como estes casais reagem frente à infertilidade secundária?

Luciana Leis – Ter dificuldade de ter um segundo filho pode gerar um estresse enorme para o casal. Muitos acreditam que por terem tido uma primeira gravidez bem sucedida poderão ter outras iguais. Mas isto nem sempre é verdade. O importante neste processo é saber o momento adequado de buscar auxílio médico e psicológico. O estresse emocional e a ansiedade que um casal sente lidando com a infertilidade secundária podem ser ampliados pela falta de compreensão da família e de amigos. Este tipo de situação é menos reconhecida e compreendida pelos mais próximos do que os casos de infertilidade primária. Tanto a família, quanto os amigos podem não entender o sofrimento de quem enfrenta dificuldades para  engravidar pela segunda vez. Esta falta de compreensão e empatia do círculo social pode provocar sentimentos de inadequação, é como se o casal não tivesse o direito de ficar triste por não conseguir a segunda gravidez, uma vez que já tem um filho. Outra fonte de estresse vem do fato de estarem cercados por casais que não tiveram problemas para engravidar do segundo ou  do terceiro filho. Se o casal sofre de infertilidade primária, ele pode evitar o mundo infantil, mas quando o casal já tem um filho, ele está mergulhado nesse universo e não pode deixar de participar de festinhas de aniversário  e de outras atividades infantis, onde encontra casais grávidos e cheios de filhos.

7)Outra questão difícil em família é o fato de um dos cônjuges desejar ter filhos e o outro não. Como é possível lidar bem com esta situação?

Luciana Leis - Diante de um cenário de impasses, muitos casais me perguntam  o que fazer nessas horas. Procuro ouvi-los, orientá-los e lembrá-los que a paciência e o respeito pelo tempo do outro, dentro de uma relação, onde ficar junto é a prioridade, acabam sendo o melhor caminho. Algumas pessoas precisam de um tempo maior para amadurecer a idéia de ter um bebê e não adianta embarcar no projeto do outro só para agradá-lo ou com medo de perdê-lo, pois a dificuldade quanto a assumir esse novo papel pode aparecer mais à frente. O projeto de filhos dentro de uma relação saudável não deve ser unilateral, o desejo dos dois  precisa ser considerado. Porém, há casos onde um dos parceiros acaba revelando um não desejo e, nestas situações, o (a) parceiro (a) que deseja um filho fica frente a uma escolha sobre em qual projeto ele deve apostar: o do casamento ou o de ter um filho. A psicoterapia pode ajudar as pessoas a clarificarem seu desejo por um bebê e a bancá-los, ou então, a perceberem melhor que não há desejo e, a partir daí, auxiliá-los na busca por outros projetos de vida, se necessário.

8) Durante os tratamentos de reprodução assistida, é comum uma tendência das mulheres de estenderem a infertilidade para outros espaços de sua vida. Como se dá este processo?

Luciana Leis - É comum percebermos que as mulheres com dificuldade de gravidez começam a se fechar num mundo muito solitário e frio. Deixam de sair com receio dos comentários alheios, sentem-se inferiorizadas frente às demais mulheres, pouco dividem com seus companheiros sentimentos e pensamentos com medo da rejeição do parceiro e, em alguns casos, abandonam seus empregos para dedicarem-se exclusivamente ao tratamento para engravidar. Com tantas limitações, a infertilidade acaba estando presente em tudo, uma vez que se configura como “não produzir, não criar”. Se imaginarmos um terreno a ser germinado e colocarmos a infertilidade em apenas uma porção, com o passar do tempo, olhamos novamente este mesmo terreno e percebemos que a porção infértil ocupou uma área maior. Isso não precisa necessariamente ser assim. Para contornar este período difícil da vida é necessário que essas mulheres consigam “adubar” e “preparar a terra” a fim de que outras produções sejam possíveis, expandindo seus horizontes para além da gravidez. O processo psicoterapêutico auxilia muito nessa questão. Algumas pacientes engravidaram  justamente no momento em que se viam produtivas no trabalho e maduras em sua vida pessoal.

9) Após várias tentativas frustradas de engravidar naturalmente e com a ajuda de técnicas de reprodução assistida, como o casal pode saber que a adoção é a melhor saída para que a maternidade/paternidade se realize?

Luciana Leis - No caso de casais com dificuldades para engravidar, nota-se que a adoção surge como uma outra porta que pode ser aberta para a  maternidade/ paternidade. Para que essa porta possa se abrir, é necessário que o luto pela perda do filho biológico não gerado possa ser vivenciado. Não há como adotar uma criança, de forma saudável, sem passar pelo processo de aceitação e elaboração da infertilidade, pois após esse período, o casal poderá, aos poucos, abrir espaço emocional para a chegada do filho de uma outra forma, diferente da idealizada, de uma forma possível e não menos satisfatória. Faz-se relevante destacar também que o desejo de ajudar uma criança não é suficiente para que a adoção se dê, pois não estamos falando de um ato de amor ao próximo, e, sim, da constituição de uma família, dentro da qual é necessário que essa criança tenha um lugar de filho, assim como qualquer filho biológico. A criança adotiva precisa se sentir escolhida e desejada por seus pais. É por isto que a adoção implica em tomar para si algo que antes era estranho e que, com o tempo, poderá se tornar muito familiar.


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Crédito:Cris Padilha

Autor:Márcia Wirth

Fonte:Universo da Mulher