Rio de Janeiro, 13 de Novembro de 2019

Drogas na infância

Como toda mãe que cuida da educação do filho, a profissional liberal L., 45 anos, sabia que sua filha estava chegando à adolescência e que, em algum momento, teria que alertar a menina sobre o risco do envolvimento com drogas. A realidade, porém, surpreendeu esta mãe de classe média: há dois meses, L. tomou um susto ao flagrar a filha, de 13 anos, consumindo cocaína. Sem saber o que fazer, ela procurou ajuda e descobriu que dezenas de casos como este chegam diariamente ao Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), da Uerj. Nos últimos anos, a mudança no perfil dos pacientes chama a atenção dos especialistas: a idade dos usuários de drogas está diminuindo, chegou à faixa etária média dos 12 anos, a maioria vinda de famílias de classe média.

— Em 16 anos de Nepad, nunca vi nada igual. A média de idade era de 20 anos, mas, desde 1996, a faixa etária dos usuários de drogas vem caindo. No cadastro do Nepad, já houve um caso de consumidor de cocaína de 8 anos. Estamos tão assustados que pedimos ajuda à Sociedade Brasileira de Pediatria. Dependendo do caso, temos que prescrever antidepressivos e procuramos saber quais os medicamentos indicados para crianças e pré-adolescentes — diz Maria Thereza de Aquino, diretora do Nepad.

De acordo com pesquisa feita pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) com estudantes de 10 a 17 anos, em 14 capitais brasileiras, os jovens gaúchos e cariocas são os que mais usam drogas no país. Segundo a Unesco, a primeira experiência com drogas ocorre antes dos 15 anos; o consumo de cocaína entre jovens está crescendo; e 15% dos entrevistados do Rio e de Porto Alegre disseram que usam ou usaram drogas ilícitas.

J., de 14 anos, é uma das que ajudam a engrossar as estatísticas. Ela começou a usar drogas há um ano, numa festa. Em dois meses, o consumo virou hábito.

— Meus amigos de infância se afastaram, diziam que eu estava estranha. Minha mãe não desconfiava... Era ausente, mas acho que agora ela pretende correr atrás do prejuízo — conta J., que quer se livrar da dependência com psicoterapia.

A diretora do Nepad ainda não sabe explicar as razões do crescimento do consumo de drogas entre pré-adolescentes, mas arrisca uma hipótese:

— Talvez a banalização do uso da maconha que muitos dizem ser inofensiva esteja contribuindo para este quadro. As drogas são mais um produto a ser consumido, numa sociedade cada vez mais consumista. As crianças não escapam disto. Não sabemos como um pré-adolescente tem acesso à droga. O mais comum é descobrir que ele gastou a mesada ou furtou dinheiro em casa.

Cláudio Jerônimo, coordenador do programa de tratamento de dependentes do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, diz que o acesso à droga está cada dia mais fácil na escola ou em festas:

— O aumento da disponibilidade multiplica o número de experimentadores. Vejo muitos pais que foram consumidores de maconha e hoje não sabem o que fazer quando os filhos usam a erva — diz Jerônimo.

Para o psicanalista Eduardo Losicer, a geração de pais que hoje tem 40 anos não pode vacilar no uso da autoridade diante do consumo de cocaína por crianças e adolescentes.

— São casos de repressão pura e simples. Não há alternativa. Ainda acho que o problema mais grave entre crianças, a partir dos 10 anos, é o álcool. Há legiões de alcoólatras púberes no Rio — diz Losicer, que é adepto da filosofia “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” e considera hipocrisia deixar de beber na frente da filha, embora se recuse a permitir que ela o acompanhe com um drinque.

A psicanalista Alice Bittencourt comenta que os pais da geração que tem hoje 40 anos se mostram despreparados para enfrentar o problema:

— Há os que já fumaram e cheiraram muito e não se sentem no direito de reprimir os filhos. Eles agem como o avestruz e preferem não enxergar um drama com o qual não sabem lidar. E há os que reprimem demais porque já sofreram o diabo com as drogas. Nos dois casos, os pais não sabem lidar com o problema e devem procurar ajuda.

Para o psicoterapeuta Sander Fridman, a família deve oferecer modelos de vida aos dependentes químicos.

— Ter um diálogo que não seja moralista com os filhos, falar francamente de emoções, pensamentos e angústias: tudo isso é importantíssimo para os pais quando se detecta o problema das drogas nos filhos. Os pais devem oferecer modelos de vida e de enfrentamento para as crianças e os adolescentes, sem se esconder dos problemas.

A advogada Flora Strozenberg acha que a redução da idade do envolvimento com drogas é conseqüência de famílias desestruturadas.

— O estatuto da criança e do adolescente é claro ao dizer que os pais são responsáveis pela educação dos filhos e que, no caso do envolvimento com drogas, pode haver até a perda da guarda e do pátrio poder — diz Flora.

Médicos ensinam pais a lidar com o problema

Instituições de apoio a dependentes químicos oferecem tratamentos de curta ou longa duração com equipes multidisciplinares e acompanhamento terapêutico às famílias. Para Maria Thereza de Aquino, no entanto, a desestruturação familiar não pode ser usada como justificativa exclusiva para a procura das drogas:

— Sabemos que um ambiente com pais omissos e frágeis pode ser fértil para os jovens que buscam as drogas. Mas não se pode generalizar, porque nem todo filho de pais omissos vira dependente.

Ela acrescenta, porém, que a reação dos pais é fundamental para a recuperação de um filho pré-adolescente envolvido com drogas:

— Estou vendo com muita preocupação a redução da idade daqueles que nos procuram. Se um adulto jovem precisa de cinco anos para tornar-se dependente, qual será o tempo que uma criança precisa? Ainda não sabemos. As drogas estão cada vez mais perigosas. A maconha de hoje não é a mesma dos anos 80. Está muito mais potente.

Pais devem conversar com as crianças sobre drogas

A diretora do Nepad afirma que os pais precisam exercer uma vigilância cada vez mais constante sobre os filhos, sobretudo quando se trata de crianças e pré-adolescentes.

— Os pais devem conversar com os filhos sobre drogas a partir dos 8 anos. E devem saber que as escolas, sozinhas, não têm condições de impedir que seus filhos entrem em contato com uma oferta cada vez maior — diz.

O Nepad, segundo ela, trata tanto pais quanto filhos:

— O acompanhamento dos pais é essencial. Eles não devem hostilizar os filhos, mas devem acompanhá-los no cotidiano. Ninguém pode esperar que a orientação venha dos professores. É hora de defender a prole a qualquer custo.

Cláudio Jerônimo, do Albert Einstein, afirma que, na maioria das vezes, os casos levados ao departamento de dependência química do hospital são de filhos que têm pais distantes.

— O primeiro sinal de alerta para os pais é não saber onde está o filho e nem com quem ele anda. Quase todos os envolvidos com drogas que chegam ao hospital têm pais que desconhecem o seu cotidiano.

Embora os especialistas não definam um perfil preestabelecido para a família de dependentes químicos, alguns acham características comuns aos adolescentes dependentes de drogas. A necessidade de auto-afirmação ou de identificação com um grupo específico; a revolta diante do sistema de valores familiares; a curiosidade e a necessidade de dominar as próprias emoções, de acordo com especialistas, são alguns dos motivos que levam às drogas.

Tia do adolescente F., 16 anos, a designer V. conta que seu sobrinho, desaparecido há oito meses, não chegou a sentir os benefícios da psicoterapia. Na opinião de V., o conflito familiar pode ter levado F. a procurar as drogas.

— Meu sobrinho era um bom estudante. Queria ser independente e arrumou emprego numa confecção. O pai é alcoólatra, batia na mãe e ele assistia a tudo. Quando os pais se separaram, F. começou a fumar maconha. Logo passou para a cocaína. Foi expulso da escola, demitido, começou a vender jóias e objetos de valor da minha irmã para comprar cocaína e, por fim, saiu de casa. Procuramos núcleos de apoio a dependentes, levamos o caso à polícia, mas não tivemos mais notícias dele.

Dependente precisaquerer largar o vício

Com três filhos, sendo um deles a dependente química A.M, hoje com 31 anos, F.M diz que a procura de ajuda deve partir do dependente.

— Não adianta fazer marcação serrada, nem perseguir os filhos. É preciso procurar ajuda em núcleos de apoio ou deixar que eles cheguem ao fundo do poço. Só assim percebem que precisam de ajuda.

Filha de F.M, A.M sofreu com o vício durante 14 anos até chegar às sessões dos narcóticos anônimos. Hoje, aos 31 anos, acredita que às vezes a repressão familiar atrapalha o tratamento dos dependentes.

— É uma questão particular e complexa. A única certeza que tenho é de que o drogado só alcança a cura quando toma a decisão de abandonar o vício. E tudo fica mais difícil sem o apoio dos pais. No meu caso, meu pai esteve até o fim ao meu lado e eu só acordei diante da iminência de perder a guarda da minha filha, hoje com 8 anos.

Onde buscar ajuda

NEPAD/UERJ: Rua Fonseca Teles 121, quarto andar, São Cristóvão ( 2589-3269, 2587-7148, 2587-7163).

GRUPO DE ESTUDOS SOBRE O TRATAMENTO PSICOTERÁPICO DE TOXICODEPENDÊNCIAS: Coordenado pela médica Sabine Cavalcante (2589-8709; 2589-8372).

VILA SERENA: Rua Professor Olinto de Oliveira 28, Santa Teresa (2556-0696 e 2556-6583).

UNIAD/UNIFESP: Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo. O atendimento é gratuito (11-5575-1708).

PROAD/UNIFESP (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes): Tratamento gratuito. Rua dos Otonis 887, Vila Clementina (11-5579-1543).



UDED/UNIFESP (Unidade de Dependência de Drogas da Universidade Federal de São Paulo): Tratamento gratuito para dependentes de álcool; R$ 200 por mês para dependentes químicos (11-5539-0155, ramal 162.

GREA (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas/USP): Atendimento ambulatorial gratuito (11- 3064-4973).

NARCÓTICOS ANÔNIMOS Rio de Janeiro: 21- 2533-5015; São Paulo:11- 5594-5657; Espírito Santo: 27- 3323 6699; Rio Grande do Sul: 51- 32912441; ou no site www.na.org.br.

Crédito:Fatima Nazareth

Autor:Elisa Torres

Fonte:O Globo