Rio de Janeiro, 13 de Novembro de 2019

Fertilidade

Quem quer engravidar?

Se você quer muito um bebê e não tem conseguido, veja como a medicina pode ajudar

 

Todas iguais: Fátima, Sílvia, Assíria e Celine são celebridades que, como muitas de nós, não conseguiam ter filhos. A fertilização assistida ajudou a realizar o sonho de ser mãe.

Engravidar, para muitas pessoas, não é tão fácil quanto se pensa. De cada cem casais que querem ter um filho, 80 conseguem depois de manter relações regulares por até um ano e meio sem usar qualquer método contraceptivo. Os outros 20, por conta de algum problema, não são bem-sucedidos. Mas eles têm muitos recursos para tentar antes de desistir, inclusive o da reprodução assistida.

As razões conhecidas da infertilidade são várias. Os estudos apontam que cerca de 40% dos problemas de infertilidade são femininos, outros 40% são masculinos e 20% são provocados por causas desconhecidas. Os ginecologistas e andrologistas – médicos que cuidam da infertilidade masculina – podem descobrir os problemas por meio de vários exames. "Os testes – espermograma e ultrassonografia na mulher – são obrigatórios para o médico saber o que exatamente está acontecendo, para então poder tratar adequadamente", explica Luiz Eduardo Albuquerque, coordenador médico da Associação para Estudo da Fertilidade, de São Paulo.

A primeira providência que o casal que enfrenta dificuldades para engravidar deve tomar é a de procurar um médico. Ele fará a investigação necessária e o diagnóstico correto para orientar um tratamento. Mas, se a mulher tiver 38 anos ou mais quando decidir engravidar, ela já pode marcar uma consulta com seu ginecologista antes de começar as tentativas. É que, com o avanço da idade, o óvulo perde qualidade e, portanto, fica mais difícil engravidar.



Gisele Bündchen: seu IMC é de apenas 16. Nem tudo é perfeição.

A gordurinha necessária

Se você está com problemas para engravidar, um dos motivos pode ser o seu peso. O corpo da mulher precisa de certa quantidade de gordura (não muita!) para produzir os hormônios da ovulação. A pesquisadora Rose Frisch, professora de ciência populacional da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, observou que mulheres muito magras – com IMC (índice de massa corporal) abaixo de 18,5 – podem ter mais dificuldade de engravidar. Para calcular o seu IMC, você deve primeiro multiplicar sua altura por dois (Ex: 1,65 x 2 = 2,7). E depois dividir seu peso por esse número (Ex: 55 quilos/2,7). Neste caso, o IMC será 20,3. O estudo alerta que a magreza pode afetar a fertilidade, e não que magrinhas não possam engravidar. Aquelas cujo IMC supera 25 podem enfrentar o mesmo problema das mais magras.

As técnicas disponíveis

Indução de ovulação (também chamada de coito programado) – a mulher toma comprimidos e injeções de hormônios para produzir mais óvulos e aumentar a chance de que um seja fecundado durante o sexo, que neste caso terá dia e hora marcados. "A indução é uma aventura, mas vale a pena", diz a professora Ana Paula Di Stasio, 30 anos, mãe de Enzo. As chances de engravidar assim são de 20%. O custo do tratamento, em média, é de R$ 700.

Inseminação artificial – a mulher tem de induzir a ovulação com remédios (ou injeções). Os espermatozóides do marido são coletados no laboratório e os melhores vão para o útero por meio de um cateter fino. Pode doer um pouco, mas é um procedimento rápido. "Recorri à inseminação para ter meus dois filhos. A primeira tentativa não deu certo, mas não desisti", conta Flávia, que pediu para não ser identificada. As chances de sucesso nestes casos são de 20%. O tratamento sai por volta de R$ 2 mil.

Fertilização in vitro – a mulher toma injeções diárias de hormônios, para induzir a ovulação. Quando isso ocorre, os óvulos são aspirados e fecundados no laboratório. O médico transfere três ou quatro ao útero. "E depois é preciso aguardar 15 dias para saber se eles se fixaram no útero, e quantos são. Enfrentei essa espera três vezes", lembra a empresária Ana Paula Santana, 32 anos, mãe dos gêmeos João Pedro e Manuela. As chances de engravidar são de 30%. Custa por volta de R$ 7 mil.

Injeção intracitoplasmática de espermatozóide – o nome é comprido e estranho, mas é a técnica que oferece a maior chance de sucesso, em torno de 45%. O médico retira, com uma agulha finíssima, os espermatozóides diretamente dos testículos do homem (soa doloroso e impressionante, mas não é!) e os coloca dentro do óvulo. "Tentamos a indução e uma inseminação. Só a injeção resolveu", conta a estudante Luciana Siqueira, 31 anos, grávida de gêmeos. Cada tentativa custa, em média, R$ 8 mil.

Doação de óvulo – é um método polêmico porque o bebê carrega a carga genética apenas do pai: o óvulo de uma doadora mais jovem e desconhecida é fecundado com o espermatozóide do pai, em laboratório. O embrião é então transferido para o útero da mãe. É preciso que a doadora seja "parecida" com a mãe: ter tipo sangüíneo e fator RH iguais aos dela. Essa técnica é usada em mulheres com mais de 40 anos. Ainda não há dados precisos do sucesso. O custo, em média, é de R$ 7 mil.

Se nada funcionar, as pessoas que quiserem muito experimentar os prazeres e os desafios de criar um filho podem considerar a adoção.

Boa sorte!

O estresse atrapalha

Você já desejou muito alguma coisa, colocou toda a energia para conseguí-la e, no final, deu em nada? Com certeza sentiu frustração, depressão, desamparo. É exatamente assim que os casais que não conseguem ter filhos se sentem. "Não existe casal infértil que não tenha estresse", disse Luiz Eduardo Albuquerque, da Associação para Estudo da Fertilidade. A empresária Ana Paula Santana, de 32 anos, foi direto ao ponto: "Era um sentimento de exclusão. Dizia para mim mesma: todo mundo consegue, só eu não!". Após três tentativas de inseminação, ela sente que faz parte de um universo: é mãe de João Pedro e Manuela, gêmeos de 9 meses.

A busca por um filho é capaz de perturbar homens e mulheres. O médico José Gonçalves Franco Jr., há dez anos à frente do Centro de Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira, em Riberão Preto, foi atrás do grau de estresse causado por essa busca.

 Segundo o estudo, 10% dos homens e 30% das mulheres anseiam muito por um filho.

 A cobrança também desgasta: 36,2% das mulheres e 22,7% dos homens se aborrecem quando questionados sobre a falta de filhos.

 A espera do teste de gravidez é o período de maior estresse para 82,8% das mulheres.

 Quando descobrem que não engravidaram, 74,7% se deprimem. "A menstruação, para esses casais, equivale a um aborto", resume Franco.

A terapia pode ser uma saída para enfrentar esse período. "Orientações psicológicas levam ao equilíbrio emocional e podem aumentar a taxa de gravidez", afirma Débora Seibel, psicóloga da Clínica Huntington de Reprodução Assistida. E completa: "Não adianta fazer tratamento para ter nenê e dilacerar a vida pessoal".

Onde procurar ajuda

Hospital Pérola Byington – As interessadas devem ir à Rua Santo Antônio, 620, São Paulo, de segunda a sexta, a partir das 13 horas. Atende a mulheres com até 36 anos e 11 meses de todo país. O casal precisa comprovar uma união estável de dois anos. Gratuito.

Hospital das Clínicas de São Paulo – Gratuito e sem limite de idade. Informações: (11) 3063-3030, de segunda a sexta, das 7 às 12 horas.

Clínica Origen – Avenida do Contorno, 7.747, Belo Horizonte, Minas Gerais. Informações: (31) 3292-6363. Atende ao país inteiro, sem restrição de idade. Não é gratuito, mas oferece descontos. Neste mês de agosto, oferece consultas gratuitas que incluem exames.

Associação para Estudo da Fertilidade – Fica na Avenida Indianópolis, 843, São Paulo. Não é de graça, mas os tratamentos ficam em média 20% mais baratos e podem ser parcelados. Informações: 0800-771-2949.

Fundação Maternidade Sinhá Junqueira – Oferece tratamento gratuito para mulheres de baixa renda de Riberão Preto, em São Paulo. Não há limite de idade. Informações: (16) 615-8230 ou (16) 6363-3886.

Hospital de Clínicas de Porto Alegre – O tratamento e os medicamentos são pagos. Serviço de reprodução assistida: (51) 3316-8000.

Para quem não quer engravidar

Assim como muitas mulheres querem engravidar, outras têm os seus motivos para evitar. Veja a seguir os modernos contraceptivos hormonais

Camisinha: USE SEMPRE

Aqui você vai conhecer como funcionam os anticoncepcionais hormonais conhecidos como de nova geração. São métodos que prometem maior eficácia e conforto e, apesar de ainda causarem efeitos colaterais, eles são menores do que os provocados antes das novas formulações. Isso porque as doses hormonais são menores. Antes de experimentar qualquer um deles, converse com seu médico. Só ele poderá indicar um método hormonal. Para dar o mais adequado a você, ele vai avaliar sua saúde, idade e estilo de vida. Como é importante também evitar doenças sexualmente transmissíveis, nunca se esqueça da camisinha. Previna-se! E não descarte logo de cara o uso dos métodos não hormonais, como o diafragma ou o DIU. Eles funcionam.

Pílulas: elas agora causam efeitos colaterais menores.

 


Pílula de baixos teores hormonais –
a dose de hormônios femininos (estrógeno e progesterona) na fórmula é 25% menor do que a das pílulas tradicionais. Quanto menor a quantidade de hormônio, menores os efeitos desagradáveis, como enjôos e dor de cabeça.

 

 

Pílula de um só hormônio – tem um só hormônio, o desogestrel (um progesterona sintético de nova geração), que inibe a ovulação. É indicada para quem tem intolerância ao estrógeno. Deve ser tomada diariamente, sem interrupção. Como tem baixa dosagem hormonal, pode ser usada por mulheres que estão amamentando, sem alterar a qualidade e quantidade do leite. É uma boa opção para quem tem problemas vasculares ou pressão alta. Apresenta 99% de eficácia.

Anel vaginal – é um anel redondo feito de material flexível com mais ou menos 5 centímetros de diâmetro. Deve ser colocado no fundo da vagina uma vez por mês pela mulher, que o retira depois de 21 dias para menstruar. Daí, um novo pode ser colocado. O anel não é uma variação do diafragma, porque não é um método de barreira. Ele tem ação hormonal – contém progesterona, que é liberado em doses baixas e altera o muco cervical, freando a entrada de espermatozóides. Sua falha varia entre 0,1% e 0,2%. É recomendado para quem não quer parar de menstruar ou não se adapta às pílulas orais. Não dá enjôos nem atrapalha as relações sexuais.

Injeção e intravaginal – há dois tipos de anticoncepcionais que não precisam ser ingeridos. Um é a injeção, dada em uma dose a cada 30 dias. Esse método contém estrógeno e progesterona, que inibem a ovulação. O outro é intravaginal. O medicamento deve ser colocado todos os dias. A vantagem é que não circula pelo estômago e fígado. Apresentam 99% de eficácia.

Cápsula subcutânea – é colocada no braço, sob a pele, e vai liberando doses adequadas de progesterona sintético, que inibe a ovulação. Fica no corpo por três anos e só deve ser colocada e retirada pelo médico. Não é indicada para quem tem problema circulatório. O índice de falha é próximo a zero.

Apresentação: isto é um DIU

DIU com hormônios – libera pequenas quantidades de hormônio progestogênio apenas no útero, deixando o muco cervical mais grosso, impedindo a movimentação do espermatozóide. O índice de falha varia entre 0,2% e 0,4%. A colocação e retirada são feitas pelo médico. Dura cinco anos. Melhora as cólicas menstruais e reduz o volume do sangramento em 80%, mas pode cessar a menstruação.

 

Método de emergência

Pílula do dia seguinte – é usada quando você teve uma relação sexual perigosa – sem proteção ou se a camisinha estourou. É uma pílula de emergência que deve ser tomada até 72 horas (três dias) depois do ato sexual, para surtir o efeito desejado no útero da mulher. A eficácia da pílula é maior, chega a 95%, quando tomada 24 horas após o ato sexual. Se deixar para ingerir dois ou três dias depois, as chances de você não engravidar cai para 58%. Importantíssimo: a pílula do dia seguinte NÃO foi feita para ser tomada todos os dias, porque não é um método contraceptivo.

*Consultoria: Cristina Guazzelli, ginecologista e professora-adjunta do departamento de obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo.

Fotos: Ana Branco/Ag. O Globo; Claudio Gatti/Editora Globo; Sergio Tomisaki/Ag. O Globo; Ryan Remiorz/AP; Daniel Aratangy/Editora Globo; Julio Vilela; Moacir Lugato/Editora Globo; Itacy/Editora Globo; foto (still): Carlos Cubi

Crédito:Fatima Nazareth

Autor:Patricia Cerqueira

Fonte:Criativa