Rio de Janeiro, 15 de Abril de 2024

A jornada para a transformação

A jornada para a transformação

Em todas as tradições espirituais encontramos o mito do caminho, da peregrinação. Os maometanos têm que ir pelo menos uma vez na vida a Meca. Os magos fazem o caminho de São Tiago. Os nordestinos vão ao Juazeiro do meu Padrinho Padre Cícero Romão Batista. A busca, a procura de si mesmo, simbolizada pela peregrinação aos lugares santos, é um momento único na trajetória pessoal do indivíduo em direção à sua espiritualização, à sua libertação. Cada um de nós tem o direito e o dever de transformar-se em um ser divino, mas isso somente pode ser alcançado às custas da própria experiência, nas palavras de H. P. Blavatsky. 

O início da caminhada
Quando empreendemos nossa jornada em direção à transformação, é como se iniciássemos uma viagem por um território desconhecido. Não sabemos o que vamos encontrar pela frente e temos de confiar plenamente na nossa intuição, no nosso discernimento, na nossa capacidade de visualizar o caminho e encontrar a melhor maneira de ultrapassar os obstáculos. É preciso que confiemos também na nossa força, no nosso desejo sincero de libertação, na ânsia de transmutarmos alquimicamente em ouro puro o metal inferior de que somos constituídos. 

À medida que progredimos no caminho, começamos a descobrir que ele é árduo, mas que não é feito somente de dificuldades. Vislumbramos lugares agradáveis onde repousar os olhos e o coração. E começamos a encontrar companhia, de outras pessoas - poucas é verdade, mas que estão aumentando a cada dia - que começaram a trilhar também essa estrada que escolhemos. Passamos então a sentir que a viagem não é tão solitária como pensávamos inicialmente. 

Nesse percurso, precisamos estar preparados para perdermos algumas coisas pelo meio do caminho. Sim, porque à medida que vamos caminhando, começamos a descobrir que temos de nos livrar de coisas que nos dificultam a jornada, ou porque são muito pesadas, ou porque são difíceis de carregar. Curiosamente, em outras situações descobrimos que algumas coisas que achávamos indispensáveis no início da viagem começam a se tornarem incômodas, ou desnecessárias, e é geralmente com grande alívio que chegamos à conclusão de que é hora de as deixarmos para trás. Começamos a modificar nossas concepções sobre o mundo e a vida, preferências, hábitos de diversão ou alimentação, maneiras de vestir. Em decorrência dessa transformação, passamos também a questionar a qualidade dos nossos relacionamentos. 

Mudou a família, ou mudei eu?
As noções de família, amor, paixão, amizade e companheirismo estão baseadas numa determinada visão da realidade, numa forma de compreender e de estar no mundo. Padrões estabelecidos de casamento, educação dos filhos e vida em comunidade começam a se tornar incômodos para quem está vivenciando um novo caminho. E não há fórmulas, não há receitas prontas. É comum ouvirmos pessoas que estão em processo de transformação se queixarem de que o companheiro, ou a esposa, ou os filhos, não compreende o que está acontecendo com eles. Dificuldades também acontecem no local de trabalho, e com os amigos. 

Isto se dá porque o indivíduo que assume a visão holística como uma atitude diante da vida incorpora à sua prática diária a cooperação em vez da competição, a busca de valores espirituais em lugar dos valores materiais, formas mais saudáveis de estar no mundo, mudanças na alimentação, nas formas de compreender e trabalhar o stress. E vai certamente se distanciar daqueles que lhe cercam, que estão próximos a ele, mas que continuam a se comportar segundo os velhos modelos. 

Medo do novo
Tudo que é novo é subversivo, é incômodo, dá trabalho, mexe com os hábitos, com o comodismo. As pessoas não gostam de descobrir que estão erradas sobre determinada coisa porque isso as leva a questionar todas as suas outras certezas. Então é natural que resistam quando um elemento do grupo começa a se comportar de forma anômala, diferente. 

Imaginem que, quando finalmente João consegue juntar aquela quantia que vai lhe permitir trocar o seu carro pelo modelo mais novo e mais luxuoso, o seu melhor amigo simplesmente resolve abdicar do seu moderno e bem equipado automóvel - que João secretamente inveja - e passa a andar a pé, dizendo que além de ser melhor para a saúde, polui menos e economiza combustível fóssil! E o que vai acontecer com o encontro semanal na churrascaria se alguém da turma diz que não come mais carne, que agora é vegetariano? E quando aquele colega do birô ao lado não ri mais das piadas de João sobre negros e homossexuais? E aquela amiga de João, que larga uma carreira promissora numa grande empresa química e poluidora, onde ganhava um excelente salário, e vai cultivar plantas ornamentais numa granja afastada, baixando terrivelmente - no entender de João - o seu padrão de vida? 
 

Começam os choques
Todas essas mudanças têm o poder de deixar inseguras as pessoas que não estão vivenciando a transformação e são mais graves e ameaçadoras quando começam a atingir as pessoas que lhe estão mais próximas: esposas, maridos, companheiros, filhos, pais. 

Quem está iniciando a viagem, então, deve estar preparado para choques nos relacionamentos, sobretudos os relacionamentos amorosos. Eles são os mais afetados e podem evoluir para melhor ou para pior mas nunca, nunca continuam os mesmos. E o viajante deve estar preparado também para exercitar sua capacidade de compreensão e ter sempre presente que o objetivo básico é a busca do nosso eu inteiro, da nossa completude, e não a derrota dos outros. Se pudermos conduzir também outras pessoas junto conosco, a nossa viagem ficará mais simples, fácil e agradável. Devemos ter presentes, no entanto, que essa busca é essencialmente individual e ninguém pode ser obrigado a ela, sem que tenha sentido emergir de dentro de si a necessidade de realizá-la. 

Até que a morte nos separe
Quando caminhamos em busca da nossa totalidade começamos a compreender coisas básicas que antes não tínhamos nos dado conta. A primeira coisa que percebemos é a nossa fragmentação diante de nós mesmos, segundo o melhor espírito do paradigma mecanicista, e completado por anos e anos de educação fragmentada, de uma prática política ou religiosa manipulada e automática ou, o que é pior, de nenhuma prática. Nos percebemos falhos, doentes, partidos. 

Como o andrógino d'O Banquete, de Platão, estamos sempre na busca desesperada da nossa outra metade. E quando pensamos tê-la encontrado, quando achamos que vamos ficar com ela "até que a morte nos separe" - mesmo que esse tremendo prazo nos aterrorize um pouco - a nossa metade resolve ir embora e lá estamos nós novamente partidos, fragmentados, chorando e cantando, como o poeta: "Ó pedaço de mim, ó metade arrancada de mim..." 

Começamos então a procurar um relacionamento que não nos deixe tão perdido ao acabar porque, descobrimos já não tão surpresos, os relacionamentos acabam. E então percebemos que só vamos conseguir uma relação rica, criativa e inteira, se formos inteiros também. O passo inicial é questionar toda a nossa prática afetiva anterior. Intrigados, nos assalta a incômoda impressão de que amamos errado até agora. Por exemplo: o que procuramos no outro? 

O amor ideal
Os homens geralmente querem uma mulher doce, meiga, sensível, terna, submissa, dependente; as mulheres, desejam um homem forte, enérgico, objetivo, empreendedor. Esses estereótipos masculino/feminino são tão comuns na nossa sociedade que se reproduzem até nos relacionamentos entre casais homossexuais, onde um deles assume o papel masculino e o outro parceiro o papel feminino. Isso porque fomos criados numa cultura que presume haver apenas esse padrão dual de relacionamento. 

O fato é que não existem qualidades femininas ou masculinas: existem qualidades humanas. Quando somos crianças, que demonstramos sentimentos, atitudes ou comportamentos considerados "pertencentes ao outro sexo", somos levados a reprimí-los. Não se considera correto que o menino seja meigo, ou que expresse suas emoções através do choro. A menina também é chamada à atenção quando demonstra um temperamento aventureiro, quando se põe a explorar o ambiente, a pular muros. 

Ao chegar à idade adulta, manifestamos apenas, homens e mulheres, uma parte das qualidades que temos. E começamos então a procurar as outras nas pessoas que encontramos. Ficamos apaixonados, e temos necessidade de "possuir" o "objeto" da nossa paixão. Queremos que ele fique o tempo inteiro ao nosso lado. Sem ele, nos sentimos vazios, incompletos. E daí vêm os sentimentos de posse, o ciúme. Quando a pessoa por quem estamos apaixonados se aproxima de outra, pensamos que vamos "perdê-la" mas o nosso medo real é de perdermos a nós mesmos, é de abrirmos mãos daquela nossa parte escondida, oculta, que projetamos no outro. Quanto mais incompletos somos, ou nos sentimos, mais ciumentos e mais possessivos nos mostramos. 

Na tentativa de nos completarmos, procuramos modificar nosso parceiro para que ele apresente qualidades que nos faltam, que ele às vezes não tem, e pelas quais ansiamos e ele, por ser também carente e incompleto, faz o nosso jogo e começa a aparentar qualidades que não possui. Desenvolvemos também uma capacidade impressionante de descobrir o que falta ao outro e tentamos assumir essas qualidades, mesmo que não as tenhamos. Ao olhos do nosso parceiro de paixão - ou de desventura? - passamos duplamente por quem não somos: uma vez sem saber, quando procuramos nele qualidades que temos, mas não sabemos que temos; e outra vez conscientemente, quando representamos qualidades que não temos para que ele, que precisa delas, as encontre em nós. 

Os ensinamentos da paixão
A forma como nos relacionamos com os outros afetivamente nos ensina muito sobre nós mesmo, assim como acontece quando adoecemos. Quando temos uma doença qualquer, como uma doença cardíaca, aprendemos que nos faltava exercício físico, que deveríamos ter estabelecido há mais tempo uma alimentação equilibrada e que estaríamos melhor hoje se tivéssemos reduzido o cigarro. 

Com a paixão, aprendemos também o que está nos faltando: é só escrever, em qualquer ordem, ou da forma que vier à nossa mente, quais as coisas que desejamos num amante ideal. Faça isso agora. Quando terminar, você terá acabado de descrever o resto de si mesmo, e que só em si mesmo você poderá encontrar. 

Esse exercício aparentemente tolo é absolutamente revolucionário quando o fazemos com verdade. Ele é proposto por Gloria Steinem, no seu livro A revolução interior, onde ela discorre de maneira aprofundada sobre esse tema do relacionamento afetivo. 

À procura de nós mesmos
A procura do eu inteiro, completo, poderá ser tão excitante e inebriante quanto a paixão. E com um final bem mais feliz: a outra metade de nós mesmos que jaz sepultada nas nossas camadas mais profundas, uma vez encontrada e incorporada ao que já temos, jamais irá nos abandonar. 

Nesse novo contexto, o sexo passa a ser visto de forma diferente. Sim, porque para apreciar uma pessoa inteira, plena - um homem sensível e terno, uma mulher forte e decidida - precisaremos fugir aos comportamentos estereotipados que privilegiam o sexo em detrimento da intimidade, e que transformam a aventura amorosa em "conquista" fazendo-nos perder imediatamente o interesse pelo parceiro tão logo a conquista tenha sido bem sucedida. 

Uma vez inteiros e completos, estamos livres para nos relacionar à vontade com quaisquer pessoas, de preferência também inteiras, também completas. Teremos nos livrado da posse, do ciúme, do medo, da insegurança. E para nos mantermos fiéis a essas novas idéias, precisamos abrir mão da necessidade de exclusividade na relação, sendo essa talvez a mudança mais difícil pela qual temos de passar. 

O interessante a esse respeito é que, apesar de vivermos defendendo a monogamia e a fidelidade, transgredimos constantemente essas regras nos nossos relacionamentos. Não é isso o que interessa. Quem transgride as regras é apenas um transgressor. O que importa é não aceitar essas regras, e forjar outras. Esse sim, é um comportamento revolucionário, transformador. 

O maior bem da vida
Segundo os sociólogos Rustom e Della Roy, "o maior bem da existência humana são os relacionamentos interpessoais profundos, tantos quantos sejam compatíveis com a profundidade". E somente assim, livres das cadeias com que nos prenderam durante gerações, teremos tempo e energia para o amor. 

A respeito do amor, Marilyn Ferguson comenta que "nosso conceito cultural das possibilidades do amor é tão limitado que não dispo-mos de um vocabulário apropriado para descrever as experiências holísticas de amor, o qual abrange sentimento, conhecimento e sensibilidade." Mas considera que a presença do amor é constante e indispensável nos relacionamentos transformadores, que "são caracterizados pela confiança. Os parceiros estão desarmados, sabendo que nenhum deles tirará vantagens. Cada um arrisca, explora, falha. Não há fingimentos, ou fachadas. Os parceiros cooperam. Deleitam-se com a capacidade do outro em surpreender. O relacionamento transformador apoia-se na segurança que emana do abandono da certeza absoluta." 

Quanto a mim, nada conheço sobre o amor que se compare à bela epístola de Paulo aos Coríntios, em um trecho que diz: "Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei." 

Nota: Este artigo é uma adaptação do capítulo 11 do livro Iniciação à Visão Holística, de Clotilde Tavares (Rio de Janeiro, Editora Record, 1996, 3a. edição), 

BIBLIOGRAFIA 

FERGUSON, Marilyn. A conspiração aquariana. Rio de Janeiro, Record, 1990. 

FRANCO, Augusto de. A nova geração: crise e reflorescimento. São Paulo, Thomé das Letras, 1990. 179 p. 

RUDHYAR, Dane.  Preparações  ocultas  para  uma  nova  era.  São Paulo, Pensamento, 1991. 259 p. 

STEINEM, Gloria. A revolução interior: um livro de auto-estima. Rio de Janeiro, Objetivo, 1992. 291 p. 

 

 

Crédito:Augusto de Franco

Autor:Clotilde Tavares

Fonte:Iniciação à Visão Holística