Rio de Janeiro, 04 de Abril de 2020

Memórias bordadas


Os fios da memória são verdes, amarelos, azuis, qualquer cor que a imaginação desejar. Tecidos sobre panos baratos, botões, rendas delicadas e objetos catados pelo chão, eles exploram o pano contando histórias de vida das bordadeiras que vivem em um assentamento de sem-casa, o conjunto Vila Mariquinhas,na periferia de Belo Horizonte.

Com linha e agulha, seduzidas por textos de Cervantes ou Drummond, lidos para elas pelo artista Wilson Avellar, essas mulheres que bordam a luta pela moradia, a vida e o amor estão expondo seus trabalhos no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, em Juiz de Fora.

Tudo começou quando o artista plástico Wilson Avellar viu o filme “Colcha de retalhos”, com Winona Ryder e Anne Bancroft: um grupo de americanas solitárias que se reúne para contar suas histórias de amor enquanto bordam uma colcha. Idealizador da oficina Memória e Cultura, em Belo Horizonte, Avellar decidiu então trabalhar com as mães da comunidade que freqüentavam o projeto Usina de Arte e Criação, uma iniciativa da Associação Municipal de Assistência Social com patrocínio do Unicef que só atendia crianças.

Bordando para esquecer tragédias como enchentes

Essas mulheres, que saírram de vilas e favelas do interior mineiro para lutar por um pedaço de terra depois que perderam tudo o que tinham por causa das enchentes, inconscientemente mostravam em seus trabalhos vários conceitos de arte contemporânea, principalmente a palavra bordada. Como as criações de dona Maria Teresinha Souza Cruz, 39 anos, cinco filhos, mulher do borracheiro José, cujo tema preferido é a família, que ela costuma reinventar em cada uma de suas colchas. De preferência ouvindo Clarice Lispector, uma paixão.

— Clarice mexe muito com a gente quando fala de amor. Mas o que eu mais gosto é de bordar meu marido de cabeça para baixo. Ele viveu anos com a cabeça virada, bebia muito, tinha muitas amantes e eu sofria demais com tudo isso.

Por coincidência, Teresinha diz que o marido melhorou “cem por cento” depois de se ver de cabeça para baixo nos bordados da mulher.

— Ele largou as “mulhezada” e a bebedeira, agora vive do serviço para casa — conta Teresinha, que, em sua última colcha, bordou a seguinte frase: o homem que bebe traz transtorno e sofrimento para a mulher e os filhos.

Norberta Vicêncio, 45 anos, três filhos, mulher de Sebastião, é uma sonhadora. Seu tema preferido é o amor.

— Todos os meus trabalhos têm um coração e a palavra amor no meio — conta Norberta, que morou numa lona durante seis anos e só recentemente conseguiu construir sua casa no assentamento.

Atualmente, duas vezes por semana, Ivone, Altina, Dilurdes, Lena, Marlene e outras companheiras se encontram na creche do centro comunitário Mariquinhas para bordar as histórias que foram varridas pela chuva e pelo tempo. Vidas tão diferentes que se encontraram em 1991, quando elas fizeram uma passeata e invadiram o adro da Igreja de São José para reivindicar moradia. Conseguiram a terra e o material de construção para erguer suas casas. Coordenador do Projeto Mariquinhas, Wilson de Avellar fala, entusiasmado, da oficina poética com as bordadeiras.

— Eu leio os textos e, a partir deles, falamos sobre nossas vidas. No início, as bordadeiras trabalhavam só sobre papel, com o passar do tempo começaram a bordar.

A professora de literatura e semiótica da Universidade Federal de Minas Gerais, Vera Casa Nova, que participa das oficinas lendo textos de Guimarães Rosa e escreveu um dos artigos para “O livro por vir“, sobre o trabalho das Mariquinhas — que está no prelo esperando editora — diz que o trabalho delas ultrapassa o limite do artesanato.

— Se é que hoje em dia a gente pode fazer essa diferença... Essas mulheres não têm técnica de bordado para fazer um ponto cheio, um richelieu, o que elas fazem é quase um ofício de bricolagem de imagens recortadas, montadas em cima de pano. Similar ao trabalho de Bispo do Rosário mas com outra perspectiva, mais próxima de um Leonilson. No caso do Leonilson, como no das bordadeiras, o traço é limpo, não há excesso.

Livro e exposição em galeria de arte

A galerista Celma Albuquerque não vende de jeito nenhum sua “Colcha do amor”, o primeiro, o maior e o mais caro trabalho das bordadeiras (2,5 metros por 2 metros): vários quadrados, cada um concebido por uma delas.

— É muito mais do que um simples artesanato, não se vê nada parecido em lugar nenhum. Elas escrevem com agulha, como se brincassem, talvez com lápis não conseguissem nem assinar o nome.

Para o crítico de arte Walter Sebastião mais importante do que saber definir a técnica é a intenção poética do trabalho.

— Acho que talvez a palavra que define a emoção que a gente tem diante delas seja arte. Mesmo que a palavra arte pareça pequena diante da criação dessas mulheres.

As colchas resgataram também a memória varrida pelas chuvas: documentos, fotos, e todas tantas outras lembranças. Elas ganharam status de obras de arte com trabalhos na pinacoteca do estado de São Paulo e em conceituadas galerias de arte contemporânea, como a Celma Albuquerque, em Belo Horizonte.

Uma mulher bordou estrelas junto do sol. Outra fez seu retrato diante do espelho e escreveu no pano: “Sou o espelho de minha casa e dos meus filhos“. Norberta escreveu: ”Gosto de me ver no espelho”. Dá prazer só de olhar.

Crédito:Fatima Nazareth

Autor:Elizabeth Orsini

Fonte:O Globo