Rio de Janeiro, 23 de Setembro de 2018

As gangues de rua e outros grupos

A adolescência é um período muito difícil para os jovens e ser aceito por um grupo é muito importante, não apenas como referência, mas, principalmente, para exercitar a convivência, reforçar a auto-estima e experimentar padrões.
 
Os grupos nesta fase representam uma boa simulação do difícil ingresso na sociedade e a forma que os jovens escolhem normalmente para se inserir nela é pela porta dos fundos.
 
Sem uma identidade definida e com uma personalidade em formação, o jovem se sente inconveniente e inadequado nessa macro-estrutura  que é a sociedade por encontrar-se em uma fase de transição.
 
Nem adulto, nem criança e psicologicamente perturbado por todas as alterações físico-emocionais que este momento impõe, o grupo passa a ser considerado o continente seguro no meio do mar de mudanças e medo.
 
Com conflitos, inseguranças e medos parecidos, os grupos se formam para criar uma identidade para seus elementos que ainda não desenvolveram uma.
 
Repetindo padrões de seus ídolos, os grupos assumem idéias e posturas daqueles com o qual se identificam e passam a se comportar e gerir as idéias destes.
 
Sem dúvida, o grupo supri uma lacuna emocional importante, resultado da pouca identificação ou mesmo da ausência da figura materna ou paterna e seus referenciais.
 
Não é por outra razão que um jovem passa dias grudado a um grupo da mesma idade, seguindo as regras de outro “pai” que é o líder do bando tão ou mais severo que o seu.
 
As gangues de rua representam um problema sócio-econômico em qualquer sociedade, mas antes refletem um problema familiar.
 
Um adolescente somente se insere em um grupo problemático quando ele se identifica com o problema, ou seja, ele também pode estar comprometido.
 
Muitos pais acreditam que seus filhos são levados a participar deste ou daquele grupo problemático porque são jovens, não sabem bem das coisas ou são muito ingênuos, mas a verdade não é essa.
 
Os jovens, em sua maioria, participam dos grupos com os quais se identificam e essa identificação antes de ser ideológica é emocional.
 
Grupos agressivos, viciados ou extremamente radicais refletem o comprometimento emocional severo de seus participantes que encontram na ação coletiva uma ótima maneira de exprimir seus desvios.
 
Mas não são apenas esses grupos que preocupam.
 
Nas escolas, onde é natural os jovens se agruparem desde cedo, o nível de agressividade do pessoal têm aumentado e isso não está acontecendo por acaso.
 
Hoje, na maioria dos países não existe nenhuma condição social ou financeira que evite que os jovens ingressem em grupos problemáticos.
 
Os indicadores mostram que essa possibilidade vem aumentando ano após ano e, com os pais cada vez mais atarefados, os filhos têm experimentado, por força das circunstâncias, uma autonomia muito precoce com a qual podem e não sabem lidar.
 
Isso não quer dizer que dar liberdade aos filhos seja ruim, mas ela precisa até o término da adolescência ser vigiada e a maioria dos casais tem dificuldade de acompanhar a rotina de seus filhos e se certificar com quem estão de fato andando e o que fazem.
 
A única forma de minimizar esse problema é insistir no diálogo com os filhos, ouvi-los com atenção e não desistir nunca de saber sobre eles, independente da reação que tenham ou da dificuldade que exista.
 
Achar que adolescente já tem uma personalidade formada e sabe o que é certo e o que é errado é o erro mais comum que os pais cometem para se surpreender depois.
 
Adolescente precisa dos pais, apesar dele não concordar com isso, de achar os pais ultrapassados, rigorosos e inadequados, de sempre discordar do que eles dizem.
 
Criar adolescentes não é tarefa fácil, mas ter filhos adolescentes problemáticos é muito pior e para que isso não aconteça em proporções desastrosas precisamos gastar nosso precioso tempo com eles, sempre.
 

 
Silvana Martani
 
Formação:
Instituto Unificado Paulista / Faculdade Objetivo 1978 – 1982.
 
Atuação:
Psicóloga da Clínica de endocrinologia do Hospital Real Beneficência Portuguesa; desde 1984.
 
Extra-curricular:
* Palestras ministradas aos pacientes obesos, com distúrbios glandulares e diabetes, desde 1989.
Aulas Ministradas aos residentes da clínica de endocrinologia do Hospital Beneficiência Portuguesa.

 
 
 

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