Rio de Janeiro, 18 de Novembro de 2017

To be or not to be

Acredito que  para muita gente prestes a visitar a Grã-Bretanha - ainda mais sendo brasileiro e acostumado as nossas comidas maravilhosas - haja uma preocupação quanto as iguarias na terra da Rainha.
Afinal de contas, os britânicos carregam a fama de serem donos de uma das piores cozinhas nos quatro cantos do globo.
 
 
 
Porém, vale a pena dizer que desde a década de 60, quando a Inglaterra começou a receber milhares de imigrantes, a maioria vindo dos estados da Commonwealth - grupo das nações pertencentes as ex-colônias do império britânico - o paladar do povo nunca mais foi o mesmo. O curry -  condimento de gosto bem forte, também muito usado na Ásia -  passou a representar para eles o que o feijão significa para os brasileiros: paixão nacional!!!
 
 
Também pelo fato dos britânicos estarem no topo do ranking dos povos que mais cruzam o planeta, fez com que o paladar deles ficasse mais aguçado, ou seja, passaram a exigir uma comida com a mesma qualidade da que tinham fora do país.
 
 
 
Isso resultou com que muitos chefs ingleses saíssem das ilhas britânicas e fossem para mecas da gastronomia mundial, como a Franca e Itália. Jamie Oliver, apresentador do programa de TV The Naked Chef, que dá dicas de culinária foi um dos primeiros a afivelar as malas e partir em busca de novas experiências no mundo gastronômico. O sul da Itália serviu como fonte de inspiração de sua cozinha, que tem uma base super mediterrânea – tudo sempre regado a  muito fruto do mar, feito com alimentos fresquíssimos e muito vegetais grelhados.
 
Sendo fã de carteirinha de Jamie e aproveitando que tinha um convite para o jantar de niver de Vivi Brock, minha querida amiga, em Londres, resolvi dar uma conferida no Fifteen - restaurante do Jamie.
O Fifteen  (número 15 na língua de Oscar Wilde) não é um restaurante qualquer. O motivo que levou o mestre cuca a fundá-lo é uma das causas mais nobres que um cidadão britânico já fez até hoje: treinar meninos carentes e desempregados em grandes chefs de cozinha. Jamie quer ver toda essa imagem equivocada sobre a culinária inglesa apagada. O nome do restaurante foi dado ao local por uma razão bem óbvia: quinze jovens foram os primeiros a participar do treinamento que dura cerca de um ano. Devo dizer que ele tem razão; Londres e muitos outras cidades de Grã-Bretanha, estão prontas para competir com restaurantes de Paris, Milão, entre muitos.
 
Os restaurantes da terra do Big Ben trazem diferenciais que ganham de muitos outros do continente europeu. Entre as qualidades estão o ótimo serviço, funcionários e público descolado, simpátia e boa comida.

Um dos motivos que me levaram ao local foi o que o Jamie sempre diz no seu programa: " Não é preciso ter ingredientes caros para uma comida sofisticada e saborosa!". Claro que estava curioso para finalmente provar todas aquelas delícias que sempre me fazem aguar quando assisto o programa.
 
Meu companheiro nesta viagem gastronômica ao Fifteen foi o Simon Hall, amigo de longa data, que como eu é um exigente gourmand. Eu o convidei por duas razões: ele é filho de fazendeiros do condado de Norwichshire, e por isso cresceu com ingredientes sempre fresquíssimos; sabe o que boa qualidade representa. Além disso, sua companhia é ótima, é claro!
 
Chegando ao restro, localizado no simplório bairro de Islington, leste de Londres, tive a impressão que estava no set de filmagens do programa de TV do rapaz. O décor do lugar reflete plenamente o alto astral e bom gosto do Jamie: logo no primeiro andar encontra-se uma Trattoria num estilo bem chique.
 
A abundância de luz no ambiente é por conta das paredes e tetos de vidro, que deram uma modificada no estilo arquitetônico da edificação, que data Londres nos anos cinqüenta.
O conceito por traz da Trattoria: ele queria um lugar despojado e de luxo ao mesmo tempo para aqueles que querem ir a um restaurante apenas beliscar uns acepipes italianos. Devo descrevê-la como um boteco de luxo.
 
O espaço também conta com um outro salão de refeição, bem mais sofisticado, no andar inferior, para onde eu e Simon fomos levados por uma atenciosa garçonete. Alias, todo mundo que trabalha na casa e super educado e nada afetado. Assim que estávamos descendo as escadas, indo em direção a nossa mesa, o ambiente ia mudando - o clima italiano desapareceu e deu lugar a um restro bem mais sofisticado, com um design bem futurista. Os móveis e o ambiente não tão intimistas quando na trattoria, mas tudo, mesmo assim, de extremo bom gosto.  O restaurante tem preços prá mais do que salgados, mas como estamos falando de uma causa nobre e social, vale sempre à pena ajudar o próximo.
 
Uma boa pedida seria o menu degustação. Forma que encontrei para provar os vários pratos do renomado chef inglês sem ter que afiar meu American Express.
 
Mal tínhamos sentado a mesa, já estavam dois garçons ali - um explicando todo o menu (que é diariamente mudado e um outro nos oferecendo um pão rústico siciliano com sabor de alecrim e tomates secos, que era de capotar de tão bom que era. “Nham, nham, nham!”
 
 
Com o pão foi servido um azeite de oliva extra- virgem numas tijelinhas de barro oriúndas da Sicília. Tão espetaculares como as nossas entradas. Meu amigo escolheu um caranguejo de Devonshire (região inglesa) servido com mouse de limão, mas nada ácido, que vinha com vários vegetais. Era de se comer rezando de tão bom.
 
Eu, glutão como sou, não resisti ao visual do prato e tive que  prová-lo. Eu fiquei com um risoto de queijos da Toscana que estava divino. O que acrescentou ao prato um toque mais do que especial foi sem dúvida as mini-flores de tomilho. O aroma que o prato aspergia era uma loucura. Sem contar que o vinho branco Shiraz australiano, safra 2000, foi a combinação perfeita.
 
Como estava nas ilhas britânicas, não há melhor lugar para pedir fruto di mare, dai o meu prato principal foi uma peixada estilo rústico italiano. Já  o Simon preferiu escalopes grelhados com aspargos verdes. Sendo justo, devo dizer que meu prato não estava tão saboroso quanto à sua aparência.  Para certificar-me que não era nenhum dos meus pitis, pedi ao meu fielescudeiro para experimentar a tal peixada. Ele concordou comigo. Tive a sorte que uma moca, sentada bem ao lado, pediu a mesma coisa. Então, não conversei: perguntei a opinião dela, que também achou o prato meio sem sabor. Olha a educação britânica dela!
 
Conversa vai, conversa vem, depois do nosso Shiraz esta quase ao fim, pedi a sobremesa.  Momento der tortura para meu acompanhante que é super alérgico a derivados de leite de vaca, dai a única solução que restava pro moco foi um plateau de queijos de cabra servidos com pão de sódio e passas num estilo bem italianão. Como filei uma tasca do pão e queijos, posso dizer o quanto bom tudo estava.
 
A minha sobremesa foi torta de creme com rhubab  ( folha meio azeda do norte da Europa, que rende compotas ótimas). A cada vez que comia a tal torta, eu pensava na tradução mais exata das palavras DELÍCIA  e PRAZER - sem dúvida este doce.
 
Como já é sabido, tudo que é bom dura pouco. As duas horas que passamos no Fifteen degustando todas estas gostosuras estavam chegando ao fim e a pior parte estava por começar: pensou na conta? BINGO!  Paga-se por pessoa em média 120 libras (até o câmbio de fechamento desta edição, isso eqüivale a 430 reais).
E como eu sempre digo, a vida e muito curta. São momentos mágicos, como no Fifteen, que levaremos deste mundo,  então esqueci o preço amargo da conta rapidinho.
 
 
Serviço:
Fifteen
Westaland Place
N1 7PL
London
 
 
Dicas:
* Telefones para reservas feitas da Grã-Bretenha: 0871 330 15 15. Estando no exterior, disque: +44 870 787 15 15.
* Tenha o cartão de credito a mão na hora da reserva, que só será feita com o mesmo. Caso precise cancelá-la faca com antecedência porque senão terá que pagar 20 libras por pessoa.
* Para ir ao restro na e preciso estar em Londres apenas. Também há filiais em Cornwall,  Sydney, Austrália e em breve Amsterdã, Holanda.
* A cada dia o menu e mudado. Haja fantasia para criar tantos pratos, mas em se tratando de Jamie, isso é tarefa fácil.
 
 
 
Esta coluna eu gostaria de dedicar a minha querida avó Lulu, que esta meio doente. Ela é uma fera na cozinha, além de ser excelente anfitriã. Muito do que sei da arte de receber, devo a ela que sempre viveu com a casa cheia. Todo mundo amando os seus quitutes. Uma coisa posso dizer: não há restaurante cinco estrelas do mundo que chegue aos pés dos acepipes preparados por ela. Coisa impartível. Vó, te amo! Fique bem logo!
Por Daniel Reynolds, de Frankfurt, Alemanha.

Escreva para o colunista. E-mail:
danieljreynolds@hotmail.com

 
 

Crédito:Daniel Reynolds

Autor:Daniel Reynolds

Fonte:Universo da Mulher