Rio de Janeiro, 19 de Agosto de 2017

Bate-papo: Elaine Portella - Por Jamill Barbosa Ferreira

 
Branca, bonita, alta, rosto simétrico, corpo esguio... Ela parece de porcelana, mas não tem nada de fragilidade, pelo menos não no sentido técnico da palavra. Elaine Portella, formada em moda pela Santa Marcelina, São Paulo, é muito inteligente, linda e simpática; faz o que gosta: cria moda, escreve e tem uma atmosfera particular de beleza e enigmatismo. Mas, nada nela é forçado, Miss Portella é espontânea, autêntica.
 
 
 
No mundo atual, onde a fantasia dita os dias e os grupos sorriem artificialmente, num esforço cada vez mais aparente e cansativo, monótono e solicitado, é essencial a chance de conhecer e aprender com Miss Portella a importância das artes, do conhecimento, da cultura e o verdadeiro sentido de viver, criar e permanecer.
 
Miss Portella é criativa, destemida no mais profundo sentimento de criar e exercer exatamente o que ela gosta. E não há esforço. Basta conversar com Miss Portella cinco minutos e você já fica atraído para apreender, a cada palavra, sua atmosfera de possibilidades e belezas legítimas: sua arte, sua permanência marcante. Ela escreve textos absolutamente fora de série, mas não é só isso. Miss Portella também sabe e gosta de fotografar. É também autora de "Eclipse", o livro onde apresenta a sua atmosfera. Indagada sobre seu próximo passo, respondeu: "Seguir em frente". Miss Portella segue em frente, mas não olha para trás, primeiro porque sabe da qualidade e da permanência do que já foi feito e segundo porque ela também sabe que quem anda olhando para trás acaba tropeçando e perdendo toda a paisagem. Neste bate-papo, Elaine Portella fala sobre moda brasileira, tendências, impulso consumista, liberdade de criação e estilo próprio.
 
JAMILL – No Brasil a moda é cara. Dá para uma pessoa estar bem-vestida sem gastar muito ou gastar muito em moda é parte inerente do bem-vestir?
ELAINE – A moda é cara quando é exclusiva e altamente manufaturada. Este é o motivo de seu alto valor. O "estar bem-vestido" faz parte do encanto de cada ser humano, se ele conseguir criar seu estilo com peças de menor custo ou não, não importa desde que lhe caiam bem.
 
JAMILL – Você é grande consumista de moda? Na moda as pessoas compram muito gato por lebre?
ELAINE – Não. Só consumo peças que expressem meu estilo e que me deixem segura.
Acredito que sim. A publicidade encoraja homens e mulheres a comprarem por impulso.
 
JAMILL – Quais são as qualidades e os defeitos nos modismos que são publicados a cada estação?
ELAINE – As qualidades que podemos encontrar estão: na renovação, na possibilidade de reinventar estilos, de fantasiar etc. Para mim, o grande defeito está no exagero e na repetição.
 
JAMILL – Atualmente, o que mais se vê em moda é um mix de estilos. Você considera de bom gosto misturar peças casuais com outras formais ou de tecidos nobres?
ELAINE – Sim, isto é um diferencial. Mas, é preciso ter cuidado, um "mix" errado destrói qualquer "look".
 
JAMILL – Quem cria moda visando mercado acaba sofrendo muita pressão comercial. Isso funciona como estímulo para melhorar os resultados ou são perturbadores e só afasta o criador de moda da sua real essência criativa?
ELAINE – No Brasil quase não existe mercado para moda conceitual, se não houver pressão não ocorre criação. É claro que isto é desgastante, mas a essência criativa e o estímulo estão ligados à pressão comercial.
 
JAMILL – O que você leva a sério na moda brasileira?
ELAINE – Alguns estilistas que respeito, por não copiarem e não anteciparem as tendências internacionais. Mas prefiro não citar nomes.
 
JAMILL – Vi um vestido criado por você, pintado à mão. O que é mais difícil quando você cria: finalizar com satisfação ou impressionar o espectador?
ELAINE – Não consigo separar os dois. A realização do processo completo com prazer é o objetivo. O caminho para impressionar o espectador está sempre mudando.
 
JAMILL – Que tipo de atitude é essencial na mulher que pretende usar uma criação sua?
ELAINE – Não estabeleço rótulos. O importante é que ela aprecie e se sinta confortável em minhas criações.
 
JAMILL – Como e quando surgiu a idéia de escrever um livro (Eclipse)?
ELAINE – Quando estava terminando a faculdade de moda e chegado o momento de realizar meu trabalho de conclusão de curso, percebi que não poderia apresentar minhas criações da maneira que queria, então resolvi expressar meu amor pela moda através de textos e fotos.
 
JAMILL – Como você classifica a elegância?
ELAINE – Da mesma maneira que Mrs. Diana Vreeland classificava: "Elegância é inata. Não tem nada ver com estar bem vestida ou não".
 
JAMILL – Defina o seu trabalho hoje.
ELAINE – Desde o primeiro dia que comecei a criar algo, prometi a mim mesma manter um estilo para que as pessoas pudessem "sentir", mas ainda tenho dúvidas.
 
JAMILL – Qual o seu próximo passo?
ELAINE – Seguir em frente...
 
 
 
 
 
 
 
 
Ilustrações: Acervo Pessoal, Elaine Portella por Taís Medri na Casa de Criadores e um vestido de sua criação.
01/01/2006
 
 
 

Crédito:Jamill Barbosa Ferreira

Autor:Jamill Barbosa Ferreira

Fonte:Universo da Mulher