Rio de Janeiro, 26 de Março de 2017

Sexto pecado capital: A Gula

Sexto pecado capital: A Gula
Segundo São Tomás de Aquino, das forças autodestrutivas existentes,  uma das que homem pode se submeter é a gula. Esse pecado capital poderia se entender como o mais primitivo de todos, uma vez que a oralidade, a primeira fase do desenvolvimento humano,  na qual a boca é a fonte de prazer caminha com o homem durante toda sua vida.
 
É pela boca que trocamos com a mãe os primeiros contatos, que nos alimentamos para viver, que sentimos as primeiras emoções e que experimentamos sensações diversas. Certamente essa função primária - comer,  teria que se elevar à sua característica mais nobre de prazer e se desordenar e aniquilar para se transformar em um pecado tanto  para a igreja quanto para o homem.
 
A gula, comer e beber desordenadamente merece tanta atenção nos dias de hoje quanto o grande filósofo a que me referi e a nomeou um pecado capital. Capital de capitão, de primeiro que oferece todos os desdobramentos, méritos.  Pecado para dar limites ao humano e suas insanidades, loucuras e desejos.  
 
Não vamos falar da gula para reafirmamos a idéia de pecado, mas para entendermos o que acontece com os indivíduos que "abusam" sistematicamente da comida e da bebida. Ás vezes, muito mais da comida do que da bebida. Essa série de “abusos” podem levar a doenças importantes como a Obesidade e seus Transtornos.
 
Hoje, a obesidade é uma doença importante que acomete grande parte da população.  Em alguns países,  é  responsável  pelo desenvolvimento de doenças severas,   como  Hipertensão, Doenças Cardiovasculares e Cérebro-vasculares, diminuição do HDL(colesterol bom), Diabetes, Infertilidade, entre outras.
 
A Obesidade, além de ser um campo fértil para as doenças citadas, ainda possibilita o aparecimento dos Transtornos Alimentares, ou seja, a Compulsão Alimentar, Bulimia e Anorexia.
 
É sabido que a Obesidade também é resultado de transtornos glandulares, mas as causas mais freqüentes são os aspectos genéticos, ambientais e comportamentais.  O que precisamos entender é que a obesidade é sempre associada ao aumento da ingestão de alimentos somada a diminuição do gasto energético. Essa relação pode acontecer em decorrência de fatores positivos, como comprar  um carro, mudar de emprego, casar, além de outras mudanças que podem gerar transformações de hábitos do cotidiano. Além disso, esta doença nasce em uma personalidade maltratada pela baixa de auto-estima, a insegurança, depressão, tristeza, além dos poucos recursos para impor seus limites.
 
Como podemos entender cometer o pecado da gula?  Muitas vezes, é  a somatória de desajustes que limitam, tanto física como emocionalmente, o indivíduo. Orbitar sobre mesas e geladeiras fartas, gulodices e não resistir às suas tentações, se escondendo para comer e não se satisfazer nunca,  independente da quantidade, pode parecer tudo menos que o indivíduo esteja no controle da situação. 
 
Estar obeso é uma condição deprimente para qualquer indivíduo  e impõe limitações importantes, tanto sociais como afetivo- emocionais e físicas. Essa doença discrimina tanto quanto a cor de pele, a condição financeira, a origem e o nível cultural.
 
Nesse ponto não estamos nem nos referindo a estética ou os padrões que a nossa sociedade impõe. O que predomina é a imagem solitária que evita o espelho, que se envergonha do volume que seu corpo ocupa e como é recebido e visto nos ambientes e pelas pessoas.
 
Quando o grande Tomás de Aquino escreveu sobre a gula, não tinha noção das doenças do corpo e dos comprometimentos emocionais, mas foi pródigo aos perceber que alguma coisa, sem dúvida, estava muito errada.
 
Como humanos somos mais frágeis do que gostaríamos e mais limitados do que poderíamos imaginar. Estamos muito mais perto de entender o que acontece conosco. Ainda temos uma longa caminhada rumo a nós mesmo, mas não podemos deixar de homenagear aqueles que, primeiro se preocuparam com essa missão.
 
 
 
Silvana Martani é psicóloga da Clínica de Endocrinologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo
- CRP06/16669 
 
 
 
 
 
 

Crédito:Eleonora Chagas

Autor:Silvana Martani

Fonte:Materia Primma