Rio de Janeiro, 23 de Outubro de 2017

Puberdade precoce - Por Silvana Martani

A puberdade precoce tem sido observada em crianças no mundo todo e não é mais privilégio dos indivíduos de grandes centros urbanos. Uma preocupação constante para pais, educadores, médicos e psicólogos, não tem suas causas definidas e suas vítimas vem aumentando a cada dia, roubando a infância de muitas crianças pelo mundo afora.

 

A puberdade precoce estabelece, como conceito, a presença de caracteres sexuais secundários (aumento dos seios, pêlos, etc.) antes da idade prevista para sua ocorrência, ou seja, para meninas, antes dos 8 anos, e para os meninos, antes dos 9 anos. Segundo alguns estudos, esses caracteres sexuais estão surgindo dois ou três anos antes do prazo tradicionalmente esperado.

 

Essa precocidade impõe ao corpo uma transformação importante antecipando possibilidades a que a criança não esta preparada emocionalmente. Tanto meninos como meninas nessas condições podem desenvolver sérios transtornos emocionais que vão da depressão, aumento da agressividade, baixa de auto-estima ao isolamento por se sentirem deslocados e muito diferentes de seus colegas da mesma idade.

 

As causas deste comprometimento não são conhecidas, mas existem muitos indícios de que são vários os fatores que contribuem para sua ocorrência. A falta de atividade física, a obesidade, o excesso de estimulação visual de caráter sexual através de revistas e TV, a erotização da moda infantil, o incentivo descomunal da busca do corpo perfeito, além de problemas de tiróide, fígado, pâncreas dentre outros, são fatores que atuam para o surgimento desta problemática.

 

De uma maneira geral, as crianças vítimas desse transtorno são muito vulneráveis por se acharem sem condições emocionais de administrar as mudanças físicas que estão sofrendo e, principalmente, o que elas representam para a sociedade. Uma criança com seios e pelos pubianos não é nem vista nem tratada como criança, o que gera um descompasso ao se adaptar. A vontade de brincar de boneca e, ao mesmo tempo, a visão sexual dos meninos por conta dos hormônios, faz com que cabeça e corpo passem a caminhar em direções opostas.

 

O ambiente familiar também contribui, e muito, para que este problema aconteça. Os pais estão cada vez mais ausentes da vida de seus filhos por conta do trabalho, da carreira e da necessidade de comporem uma renda adequada para sobreviver em nossa sociedade. Com isso, os pais perdem a oportunidade de valorizar e acompanhar, muitas vezes, a infância de seus filhos com tudo que ela representa.

 

Muitas crianças vivem em ambientes onde se valoriza muito o trabalho, o dinheiro, as aquisições financeiras, problemas econômicos e a infância é vista mais como uma circunstância pelos adultos, do que uma fase do desenvolvimento importantíssima para compor a estrutura emocional do indivíduo. Sem a valorização adequada, a criança passa a almejar crescer rapidamente para se enquadrar e pode começar a agir como um adulto, a procurar os entretenimentos dos adultos, bem como seus valores e posturas que podem ser confundidas com uma brincadeira no início, ou mesmo que a criança é muito madura, mas que, com o tempo, se impõe como uma necessidade desta criança para ser aceita, amada e valorizada.

 

Na ânsia de verem seus filhos crescerem e terem o sucesso que muitas vezes eles mesmos não obtiveram, muitos pais os incentivam a assumirem posturas e comportamentos de crianças mais velhas e a achar que isso é o que a sociedade espera deles, que a criança é esperta e bem resolvida com a sua infância. Essa leitura equivocada inverte valores e desqualifica esta fase como a grande contribuinte da formação da personalidade do adulto.

 

Crescer é um processo que deve ser incentivado e acompanhado por pais e orientadores. Toda criança tem seu tempo, seu ritmo, sua forma particular de viver cada etapa de seu desenvolvimento e cabe a todos respeitarem e, se possível, auxiliarem neste processo, afinal, sem infância teremos poucas referências de quem realmente somos.

 

Silvana Martani -  É psicóloga especialista em obesidade da Clínica de Endocrionologia da beneficência Portuguesa de São Paulo  (CRP 06/16669).

 

 

Crédito:Eleonora Chagas

Autor:Silvana Martani

Fonte:Materia Primma