Rio de Janeiro, 18 de Novembro de 2017

O zé-mané

O zé-mané
O zé-mané pensa que é, mas não é. Finge ser o que não é para ele mesmo acreditar que um dia pode vir a ser. Bota uma banca para todos acreditarem no peixe que está vendendo. Ou, ao menos, ficar com o benefício da dúvida.
       
A depressão é a companheira fiel do zé-mané quando vê seus sonhos e pretensões partirem em busca de um manuel ou joaquim, desde que não seja um zé-ninguém.
       
O zé-mané se transforma num jacu quando fracassa profissional e afetivamente, obrigando-o a se valer de uma mulher forte para forjar um sentido para a sua vida, ao que ele retribui com a prestação de serviços.
 
Como um dia já possuiu uma bagagem intelectual de respeito e agora chegou ao fundo do poço, ver o zé-povinho se dando bem lhe dá coceiras no corpo.
       
O que ele gostaria mesmo é de ser vip: viajar de primeira classe, hospedar-se em hotel de cinco estrelas e saborear iguarias finas.
 
Como esse mundo está fora do seu alcance, acaba por desenvolver um ódio dos ricos. Mas não dá um passo rumo a seus sonhos de consumo, pois sabe que é incapaz de mudar seu destino.
       
O verdadeiro zé-mané é aquele que sempre acha que os outros é que são:
 
- Se esses manés soubessem quem eu sou, não me demitiriam. Não conhecem minha história nem fizeram questão de conhecer. O que não pode é falar de fracasso levianamente. Mas eu não guardo ressentimentos. Se me quiserem de volta, eu aceito.
       
Fala demais e depois queima a língua.
 
É contra o casamento e um belo dia aparece de aliança.
 
Apregoa que vai correr o mundo, mas só consegue subir a serra.
 
Planeja uma vida alternativa e termina como gerente de banco. Enche a boca para enumerar as gostosas que caíram na sua lábia, mas é visto sempre sozinho.
       
O zé-mané é bonzinho para dar a impressão de que não vai mexer na estrutura da vida dela, já que se meter onde não é chamado não faz parte do seu repertório.
 
Contudo, os quietinhos são os mais perigosos, podem funcionar como plantas carnívoras que devoram com seu furor sexual esporádico.
       
É na sexualidade que o zé-mané demonstra o seu talento. Só o fato de conseguir arrancar de sua relação de arrimo pitadas de sexo já é lucro.
 
De resto, engole sapo e aceita esporro, desde que ela ceda na cama.
 
Esse domínio, mesmo que efêmero, alimenta o zé-mané.
 
Ele fica esperando quando será a próxima vez e, se ela deixar, o êxtase vara a noite.
 
Seria como o eunuco recuperar o pênis para dar prazer à sua rainha.
       
O problema do zé-mané é baixa auto-estima.

 

 

 

 

Crédito:Antonio Carlos Gaio

Autor:Antonio Carlos Gaio

Fonte:Universo da Mulher